Arquivo de Maio, 2009

América?! Europa?! Não, é a África do Sul!

Superou as minhas expectativas! É o mínimo que posso dizer!

Lisbon Falls

No fim-de-semana passado fui à África do Sul. Como o tempo era curto decidimos não visitar o Kruger Park, o grande santuário dos Big 5 (leão, elefante, búfalo, rinoceronte e leopardo). A visita, a convite do Aldo e da Andrea, levou-nos para lá da capital da Província de Mpumalanga, Nielspruit.

Perdemos duas horas preciosas em Ressano Garcia, a principal fronteira entre Moçambique e a África do Sul. É o papelinho para o carro, é o papelinho para as pessoas, são as filas intermináveis para carimbar o passaporte… enfim, lá passamos a fronteira a passo muito lento para depois esperarmos mais uma hora já no lado dos bóeres (a forma carinhosa como os moçambicanos apelidam os sul africanos!) por um selo e um carimbo que nos permitia “viver” no país! Livre circulação europeia, nunca senti tanto a vossa falta! 😉

Welcome to Zuid Africa!

As diferenças, abismais pelos vistos, começam logo no posto fronteiriço. O edifício da alfândega, o pessoal de serviço, a limpeza… enfim, um sem número de coisas que salta logo à vista! Infelizmente, neste campo a África do Sul começa logo a marcar muitos pontos.

 

Esquerda...direita...

Maior surpresa chegou logo de seguida! O terreno… montanhas, muitas árvores, muitos pinheiros, à mistura com bananeiras é certo, mas um aspecto muito clean, organizado e muito european style! A estrada com quilómetros de rectas deu lugar a um sinuoso percurso, com montanhas, rios e comboios a acompanhar o nosso tour. O destino era a cidade de Sabie, pouco mais de 250km para lá da fronteira. Mas, antes de chegarmos ao nosso destino, não podíamos deixar de gastar uns Rands na capital do consumo da região! Nielspruit! Esta cidade, com pouco mais de 200 mil habitantes, pareceu-me muitas vezes uma cidade californiana. As ruas, as casas, as lojas… tudo se assemelhava à América! É aqui que muitos moçambicanos vêm às compras. Há muitos centros comerciais e lojas para todos os gostos… para todos os gostos são, também, as decorações dos tais centros comerciais! Pavões a segurar tectos?! Eu e o Aldo chegamos a uma conclusão! “É demodé!” – só pode ser…

2 macacos à beira do carro!

Lá continuamos a viagem até Sabie. Bem, e da Califórnia viajei até Trás-os-Montes! Montanhas e frio, pinheiros e desfiladeiros… o clima mudou e a vegetação e o terreno também!

Sabie é o ponto de partido para visitarmos um conjunto de belezas naturais que a tornam uma cidade turística. Além das cascatas de Berlim e de Lisboa (sim, Lisboa!!!!), há um enorme desfiladeiro! Para quem nunca viu o Grand Canion ao vivo aqui está uma boa alternativa! Vistas de tirarem a respiração! Lindo, bonito!

Mais uma vez deu para fazer a comparação entre Moçambique e a África do Sul, e o resultado dessa comparação é brutal. O Aldo, a Andrea e eu (os “3 Ases”, como nos chama a Anabela) ainda perdemos alguns bons minutos a discutir as razões de tanta diferença no grau de desenvolvimento das duas nações. Pode parecer fácil, mas há um conjunto enorme de factores que levaram a este desfasamento entre os dois países (e entre o resto de África e a África do Sul): o tipo de colonização, os colonizadores, as datas da independência, a população que ficou após essas datas… são muitos os factores que influenciam a dinâmica nestes países. Mas, uma coisa é certa, a África do Sul não é realmente África. É mais uma continuação da Europa e dos EUA. Não apenas pela presença de mais cidadãos de raça branca ou da influência do inglês ou do holandês na região, mas também pelo estilo de organização das cidades, das estradas, da sociedade ou, simplesmente, pela forma como somos atendidos numa loja.  

A + A + A... desculpem a falta de imaginação!

Domingo à noite regressamos a Maputo. Passamos a fronteira e voltamos à vida normal deste país. Estradas com buracos (direi às vezes, buracos com bocados de alcatrão), água imprópria para consumo, mesmo a que nos chega pela canalização a casa, falhas constantes de electricidade e água (o que na realidade não acontece muito em Maputo… a mesma sorte já eu não tenho!), a velocidade de caracol do ADLS moçambicano, o estilo inconfundível de condução deste país…!

Como dizia no princípio deste post, a África do Sul surpreendeu! Superou as minhas expectativas, e acreditem que eu já tinha “em boa consideração” este país! De facto, percebi porque razão a FIFA atribuiu à África do Sul o Campeonato de Futebol do Mundo de 2010. Este país consegue organizar o evento! A febre do futebol está na rua! Não é um país do 1º Mundo, mas fica à frente de muitos em muitos aspectos!

Mas, nem tudo são rosas! Há também um “dark side” neste país! Vá, não vou falar disso neste post! A potência do continente africano, dizem por aí, anda a “colonizar” os países vizinhos…

Desenvolvimentos no próximo post!

Imagem do dia #015

Eram 17.30h e estes foram os ùltimos raios de sol em Xai Xai ontem…

Últimos raios de sol em Xai Xai

Imagem do dia #014

Só não sei em que equipa olímpica devo-me inscrever… na Portuguesa ou na Moçambicana?!

Só não sei em que equipa olímpica devo-me inscrever... na Portuguesa ou na Moçambicana?!

 

 

 

 

 

 

 

© Aldo T.

Imagem do dia #013

Na África do Sul devemos apenas seguir as indicações…

Devemos apenas seguir as indicações...

“Mano Alberto, a Piedade faleceu”

Foi com uma voz trémula que a Irmã Isaura me ligou na passada 5ª-feira para me anunciar tão madrasta notícia. A Piedade tinha falecido. A Piedade tinha apenas 3 anos. Desde a sua nascença tinha sido uma criança de batalhas… era seropositiva e desde tenra idade mantinha uma luta constante com essa malvada, a SIDA. Todos os meses ia à consulta no Hospital do Carmelo, em Chókwè. Depois de receber os resultados das últimas análises foi-lhe dada ordem para ser internada com a máxima urgência. Foi a sua última batalha. Infelizmente perdeu a guerra… No caminho do Chókwè ao orfanato (cerca de 30 quilómetros) tudo me passou pela cabeça. “Deus existe?!”, “Porque fez isto?!” Mas, pensando racionalmente, sem lágrimas a atrapalhar a razão, tudo isto faz parte da nossa vida. E em África, morte de crianças é uma coisa chocantemente comum. Quando cheguei ao orfanato o clima estava pesado. Só havia uma coisa que quebrava esta escuridão: as crianças. Os mais pequenitos não se estavam a aperceber da situação e continuavam a brincar como se nada fosse. Rapidamente se aglomerou um número impressionante de pessoas! A aldeia estava presente. Homens e mulheres reunidos para relembrar a Piedade. Na manhã seguinte, de novo toda a aldeia se reuniu para o funeral da Piedade. Numa cerimónia muito longa (começou às 9 da manhã e terminou já depois do meio-dia), todos nós acenamos o nosso último adeus à pequena Piedade. Toda a cerimónia foi conduzida em Changana, o que limitou a compreensão do que se estava a dizer. Muitos cânticos transportaram a Piedade no seu pequenino caixão branco coberto de mil e uma flores que todos os meninos do orfanato tinham recolhido. Na cerimónia, muito idêntica às cerimónias fúnebres em Portugal, podia-se ver a tristeza das crianças. A Piedade era uma irmã para eles. Hoje, tudo parece melhor! O sol brilha lá no alto e todos têm um semblante muito menos carregado. No orfanato, o riso e os gritos das crianças ecoam novamente.

A vida continua… a vida tem de continuar!

Em memória de Piedade da Encarnação

Imagem o dia #012

A 1000 e muitos metros de altitude… na África do Sul!

A 1000 metros de altitude na África do Sul

Passou o 1º mês!

E como passou rápido este mês.

O trabalho está a correr…devagarinho, mas está a correr! São tão lentas as coisas aqui. As pessoas são lentas, o tempo às vezes passa devagar também.

Um mês depois de chegar instalei-me na minha casa. A minha palhota de luxo! 😉

Uma das coisas mais interessantes a que posso assistir aqui é a forma como a sociedade está organizada. No sul de Moçambique o lado masculino é o mais importante. Já no norte, a mulher tem mais preponderância na sociedade. Esta forma matriarcal e patriacal de organizar a sociedade abriu fendas na unidade do país. No norte, o homem está em segundo plano na família (por exemplo, quando alguém se casa, o noivo passa a viver com a família da noiva e os seus filhos são considerados como parte da família da noiva. Se o pai ou a mãe morrer, os filhos ficam sempre na “posse” da família materna). No sul, a sociedade é organizada no sentido oposto. É em torno do homem que a sociedade gira. A mulher é relevada para um plano secundário.

Há, também, uma divisão política grande entre o norte e o sul de Moçambique. FRELIMO e RENAMO, os dois grandes partidos políticos moçambicanos, repartem as suas forças pela geografia do país. O sul é claramente pró-FRELIMO, ao passo que o norte é pró-RENAMO. Aliás, foi da Província de Gaza, no sul de Moçambique (onde vivo), que as grades figuras da FRELIMO nasceram e foram criadas. É, portanto natural, que esta seja uma zona onde a RENAMO não tem expressão política minimamente relevante. Maputo é governada por um político da FRELIMO e a cidade da Beira, a segunda maior e mais importante cidade do país, é liderada por um político da RENAMO. As diferenças entre as duas cidades são abismais e uma das razões que pode explicar o atraso da cidade da Beira é, por exemplo, o facto de este distrito ser governado pela RENAMO. As diferenças entre RENAMO e FRELIMO não desapareceram após a Guerra Civil. O Governo Nacional é FRELIMO… parece fácil perceber o jogo de influências e teias políticas que existe por estas terras!

Os próprios costumes e tradições da população variam consoante as diferentes regiões. A diversidade linguística e étnica é impressionante. Esta diversidade, na qual a Língua Portuguesa funciona como elo unificador, pois sem ela não haveria forma de estabelecer uma comunicação inteligível para toda a população, é resultado da divisão a “esquadro e régua” que os europeus fizeram em África. De facto, em toda a África podem-se contar pelos dedos de uma mão os países que gozam que uma unidade cultural, linguística, religiosa e étnica estável.

Há poucos dias estive num jantar e discutimos a sociedade moçambicana com alguém que verdadeiramente percebe destas coisas. Rita Sequeira é antropóloga e é responsável pela intervenção comunitária na região de Chókwè no que diz respeito à prevenção da malária. O seu conhecimento da sociedade e dos seus costumes é profundíssimo. Segundo ela, todos estes processos que agora têm lugar em Moçambique são fases de evolução da sociedade. “Nós, na Europa, também tivemos uma sociedade assim!” – rematou a Rita. Mas, para podermos perceber um pouco melhor o estado da sociedade, chegamos à conclusão que este mesmo estado, digamos primitivo/em fase de evolução, da sociedade moçambicana ocorreu há cerca de 300 anos na Europa! É um fosso muito grande! Porventura, graças à globalização, não serão precisos 300 anos para a sociedade local atingir um novo patamar de desenvolvimento, mas a certeza é que o processo será muito lento. A tradição e os costumes são elementos que resistem à mudança, e mudança é o que este país mais precisa!

Depois do Baptismo em África segue-se a 1ª Comunhão!

Se o pneu estourado foi o baptizo… agora só pode ter sido mesmo a 1ª Comunhão!
Ontem, como podem ler no post anterior, a chuva caiu forte no Chókwè. À luz da lua tudo parecia normal… mas hoje de manhã, com o sol a iluminar muito bem os nossos caminhos, deu para ver os estragos!
“Amanha não vais conseguir tirar o carro dali” – disse a Rita em tom profético. Mas porque raio não haveria de tirar o carro de onde o deixei estacionado?!
Durante a noite a chuva continuou a fazer das suas.
6 da manhã. Acordei e fui ver o carro. Permanecia imóvel e tudo parecia bem. Voltei para a cama e só acordei às 8h. Às 8.30 começa a cerimónia da 1ª Comunhão. Mal acelerei para sair do estacionamento percebi que as rodas tinham-se afundado na lama… no matope como por aqui se diz! Para variar um pouco, o carro tem a tracção às 4 rodas avariada!!! O “fóbyfó” (versão local de four by four), como carinhosamente os habitantes locais lhe chamam, não funciona.
Como não era de estranhar, tive logo uns quantos ajudantes que me socorreram. Eles cavaram, eles foram buscar pedras, tábuas, ramos de árvores… enfim, uma quantidade de coisas que se acabou por afundar no matope também.
As sapatilhas, as meias e as minhas pernas foram alvo de uma relaxante massagem de lama. Lama natural, produzida durante esta madrugada! Ainda estava fresquinha! Afinal, não tive de ir para nenhum spa de luxo para receber esta dádiva da Mãe Natureza!
Desta vez não houve pânico, nem sustos nem nada! Passou-se tudo à porta de casa! No final vim tomar um banho rápido e fui a pé tomar o pequeno-almoço à cidade. Ah, e outra coisa boa foi não ter de ir trabalhar!
Ninguém estava disponível para vir puxar o meu carro por isso vai continuar parado até o solo ficar um pouco mais estável!
Na volta pela cidade deu para ver alguns estragos, mas nada de grande impacto. Umas quantas placas do Barclays no chão (sim, aqui, no fim do mundo, há Barclays! Temos também duas agências do Millenium (que não distam mais de 200 metras uma da outra!) e uma agência do BCI (do grupo Caixa Geral de Depósitos), muito lixo e muita lama. Alguns carros atolados na estrada e outros que nem das garagens saíram porque as várias “piscinas olímpicas” de que falava no post anterior, bloquearam as saídas… vicissitudes moçambicanas!
Não posso postar fotografias porque não sei onde guardei o cabo para ligar o telemóvel ao computador… desde já as minhas desculpas! 😉

Fogo-de-artifício no céu

A luz voltou… os relâmpagos e os trovões já não dão sinal de vida!

As últimas 3 horas foram de chuva e trovoada intensas. Intensas mesmo! Nunca tinha visto tantos relâmpagos juntos na minha vida!

Isto tudo porque hoje foi um dia que anunciava tempestade desde manhã cedo. Às 5h da manhã (sim, ando a acordar às horas que habitualmente me deitava…) a noite estava envolta num nevoeiro espesso. Aos primeiros raios de dia, o nevoeiro frio deu lugar a um manto abafado que nos acompanhou até perto do meio-dia. Quando cheguei a Xai Xai, capital da Província de Gaza, o sol ainda se apresentava muito envergonhado. Ao meio da tarde, a temperatura já ultrapassava os 30 graus. 30 graus… mesmo estando no Inverno e época seca, a temperatura continua alta!

Ao final do dia, lá por volta das 16 horas, umas nuvens negras começaram vagarosamente a ocupar o azul do céu. Quando cheguei ao Chókwé, ainda com luz do dia, as nuvens já cobriam a cidade e ao longe começavam-se a ouvir os primeiros trovões. Muito afastados é certo, mas anunciadores da tempestade que se aproximava.

O fogo-de-artifício de raios, trovões e relâmpagos não demorou muito a começar. Vim para a porta da cozinha e apreciei este espectáculo. Nunca tinha visto nada assim! Às 18h, já noite escura, a rua era de tal forma atingida pela luz dos relâmpagos que parecia que estávamos de dia! Depois, depois começou a chover… pingas grossas… muitas pingas grossas… até que um dilúvio derramou-se durante mais de 1 hora pela cidade. A luz falhou, a internet falhou, a rede de telemóvel deixou de funcionar… e eu só pensava em duas coisas: em primeiro nas vacas (!!!). Sim, nas vacas! Coitadas, ao ar livre e a apanhar uma molha daquelas! Em segundo, foi devido a uma chuvada como esta que as últimas grandes cheias do Limpopo aconteceram. O rio galgou as margens e os canais de água transbordaram (só no Distrito (Concelho) de Chókwé está concentrado 40% de toda a área de regadio à base de canais de água de Moçambique). Mas, a chuva já passou! Ficaram apenas umas “piscinas olímpicas” espalhadas pela cidade. Quando os trovões passaram, logo se começou a ouvir o burburinho da cidade. Carros, motas, pessoas… tudo voltou ao normal! A luz voltou, a internet está de novo a funcionar, a rede de telemóvel já está operacional novamente. Tirando a pequena inundação aqui em casa, tudo está bem!

São águas Senhor, são águas!

Imagem do dia #011

De novo o Chelton… hoje esteve muito chorão!

De novo o Chelton...


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