Arquivo de Outubro, 2009

Quem quer ser Presidente?

Hoje foi dia de eleições.

A cidade acordou muito calma. Confesso que estava à espera de grande agitação por parte das diferentes caravanas políticas… mas, enganei-me! Não houve festa, nem mesmo depois do fecho das urnas. Ao contrário de Portugal, o dia de eleições em Moçambique tem lugar a um dia de semana. Uma grande razão leva a que a cruzinha no boletim de voto tenha calhado a uma quarta-feira: caso o dia do escrutínio tivesse sido a um Domingo, muita da população não teria ido votar. Ficariam em casa ou a trabalhar nas suas machambas (hortas). Sendo a um dia de semana, em que a população se desloca para trabalhar, o Governo decreta dia de tolerância e todos podem faltar ao trabalho para exercerem o direito de cidadania. Na prática, é mais um dia de feriado!

Fiquei também surpreendido com o cumprir religioso do dia de reflexão. Não houve manifestação nenhuma no dia anterior às votações! Um comportamento extremamente civilizado quando comparado com as cenas de pancadaria e violência com que as várias caravanas nos presentearam ao longo da campanha eleitoral.

Hoje, entre a estranha calmaria em Chókwè (tanta calma que quase nenhum chapa circulava) dava para ver os dedos pintados de preto. Cada eleitor, depois de votar, molha o dedo indicador direito em tinta preta, uma forma muito prática de garantir que ninguém vota duas vezes! E como a tinta é de alta duração, a possibilidade de alguém colocar uma cruzinha pela segunda vez é, praticamente, nula.

Muito presentes foram, também, os observadores internacionais. Todas as instituições reconhecem a evolução de Moçambique nos últimos anos. Apesar de só há pouco mais de 10 anos estar consagrado constitucionalmente em Moçambique um regime multipartidário, o país tem mostrado avanços na cidadania política. É verdade que Moçambique continua a ser governado pelo mesmo partido desde a transferência de poderes em 75, é verdade, também, que há desigualdades de acesso ao poder, que o partido é confundido com a política e que o cartão do partido abre muitas portas ao seu portador. Mas, como me dizia hoje alguém na Aldeia de Chiaquelane “só quando nós formos para debaixo de terra Moçambique será uma grande Nação! Quando os velhos morrerem, quando acabar a corrupção… os mais novos como o Zézito [um dos alunos do Orfanato onde trabalho] serão a nova força do país!“.

Aqui está uma mensagem cheia de esperança! A juventude!

Vamos confiar que o novo Governo saído destas eleições (Moçambique pauta-se por um sistema Presidencialista, onde todo o poder emana do Presidente da República, ao contrário do sistema híbrido português, onde se misturam os poderes do Presidente da República e do Governo, eleitos separadamente, mas onde há uma forte influência do Parlamento) venham pôr ao dispor da juventude todos os meios para que esta possa ser uma força activa no futuro, uma força capaz de mover este país, que ajude na real erradicação da pobreza, do HIV/SIDA e da malária; que lute por uma distribuição equitativa da riqueza pela população e que ajude no rápido desenvolvimento do país como um todo, e não apenas da região sul onde se situa a capital.

Vale a pena recordar que em 1960, Moçambique era um dos mais desenvolvidos e ricos Estados de África. Vale a pena pensar que muitos dos planos de desenvolvimento do país ainda podem ser reaproveitados; vale a pena pensar que Moçambique pode saltar do fundo da lista dos países mais atrasados e subdesenvolvidos do Mundo. Vale a pena apostar em Moçambique!

 O bem do país é o que todos desejamos… quem será o próximo guia?!

Quem será o próximo guia?

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Imagem do dia #102

Prenuncio de uma tempestade?

Prenuncio de uma tempestade?

Mais hora… menos hora!

Hoje apercebi-me que fiquei mais longe de Portugal! A hora mudou.

Mudou aí, mudou na Europa, mudou em quase todo o mundo! Aqui permaneceu igual. Continua a nascer o dia às 5.30 da manhã e o céu escuro desce logo às 18h.

Ainda agora estava a olhar para o relógio do computador e a fazer as contas do quão cedo é em Portugal. Aqui já são 17.13h… e o Sol já iniciou a sua rápida descida até à linha de horizonte.

Mas, porque razão não muda o sistema horário em Moçambique? Não faz sentido nenhum no norte do país amanhecer às 4.30 da manhã! São as tradições. Dizem os velhos que é mau mexer na hora. Mudar o destino… mexer na ordem das coisas… mudar o que os Deuses criaram… Superstições! 🙂

Mas, nem tudo é mau neste dia em que o Telejornal da RTP1 passa a ser transmitido só às 22h ou que os jogos de futebol passam a ser vistos de madrugada. Fui à barragem de Macarretane. Os país do Aldo estão cá e vieram fazer uma curta visita ao Orfanato. Como ainda era cedo decidimos ir até aos embondeiros. Aquelas árvores gigaaaaantes…

Nada de dar a volta ao tronco” – repetia a Andrea em português e italiano!

Gigaaaante

 

Caso não se lembrem, num post anterior expliquei a história das voltas ao embondeiro. Reza a lenda que se alguém der três voltas ao gigantesco tronco desta árvore, perde a memória! Quem quer dar a primeira volta?!

A Barragem de MacarretaneO calor às 11h da manhã estava abrasador, pelo que não nos demorámos muito tempo junto da velha árvore. A Barragem de Macarretane, um mísero lago se comparado com a gigante Barragem de Massingir, foi o local escolhido para seguirmos esta viagem turística pelas terras do interior de Gaza.

Já há muito tempo que ouvia as histórias dos hipopótamos dentro da barragem. Já lá tinha ido várias vezes, de manhã, ao meio-dia, à tarde e no fim desta, mas nunca, nunca tinha avistado tais bichos! Hoje, íamos tão distraídos que nem a história dos hipos tinha vindo à baila e eis que, mal subimos para o dique da barragem, vimos enormes bolhas a emergir da água. ERAM ELES!!!! FINALMENTE OS HIPOPÓTAMOS!

Lá estão os hipos

 E não era um, nem dois, nem três… muitos hipopótamos! Uma festa, pois sem ter pensado neles eles apareceram.

E ali ficámos uns bons minutos a observar a vida selvagem. Apesar de ser um espectáculo diferente, pois não é todos os dias que vemos hipopótamos verdadeiros tão perto de nós, o Sol queimava tudo em que tocava e não nos restou outra alternativa a não ser voltar para o carro, ligar o ar condicionado no máximo e viajar de novo até Chókwè!

E assim foi. Jamais me esquecerei. Mudou a hora, vi hipopótamos!

Imagem do dia #101

Já que vivo no meio do mato… às vezes também vou acompanhar as vacas no seu banho “anti-pulga” quinzenal!

As vaquinhas!

Imagem do dia #100

Num país onde a taxa de prevalência do HIV/SIDA é das mais altas do mundo (16.2% média nacional), o Standart Bank teve um golpe de marketing fantástico!

A palavra SIDA, que podem ver na imagem, estava preenchida com preservativos. À medida que as pessoas passavam, estes podiam ser livremente retirados. Juntou-se a badalada campanha pela luta contra o SIDA com a campanha de marketing para promover o próprio banco!

SIDA Mais informações sofre o HIV/SIDA em Moçambique em http://www.sida.org.mz/index.php?option=com_content&task=view&id=50&Itemid=65

Imagem do dia #099

GALP de Chókwè está quase pronta!

GALP de Chókwè está quase pronta!

Trilogia: carne + fogo-de-artifício + polícia

Há certas situações que têm de ser contadas! Especialmente se forem passadas em países que não o nosso.  O fim-de-semana passado prometia ser bem activo, com jantares, festas e passeios por Maputo à mistura! E activo foi ele… demais até!

SEXTA: no Paraíso das Carnes!

Na sexta-feira à tarde parti de Chókwè em direcção a Maputo com a nova voluntária que está em Xai Xai e que em Novembro virá trabalhar no orfanato onde estou. A Mariana já precisava de “banho de civilização”, pois desde o momento em que chegou até ao fim-de-semana passada (3 semanas), ainda não tinha saído do Xai Xai. A cidade é capital de província… mas deixa muito (tudo) a desejar! Como já devem ter percebido, ir a Maputo é, para os que vivem no meio do mato, uma grande necessidade e, ao mesmo tempo, um grande luxo!

Logo na sexta à noite estava marcado o jantar de aniversário do Aldo. Uma verdadeira mesa multicultural, onde as relações internacionais estavam a funcionar plenamente! Era em português, em inglês, em flamengo, em italiano… eram Portugueses, Belgas, Australianas, Suíças, Moçambicanos, Italianos… no fundo, uma micro Babel!

O restaurante, a Esplanada do Kalu’s, carinhosamente apelidada por nós de Paraíso das Carnes, é, como o nome indica, uma esplanada que tem lá dentro uma espécie de talho. Escolhem-se as carnes, os empregados vão grelha-las no centro da esplanada (estão a ver com que cheiro saem de lá as roupas?!?!?!) e depois trazem-nos o banquete à mesa!

Como devem imaginar, grandes jantares com muita gente são sempre propícios a que as “pontas” se desliguem “do centro” da mesa, acabando cada grupinho por seguir para um local diferente no fim da jantarada.

O meu destino foi um bar, Mafalala Libre, na Mao Tzé Tung, onde estava programado um concerto de Marrabenta, a música “nacional” de Moçambique, cantada pelo “pai” deste estilo musical. Entrámos, o ambiente estava porreiro e cedo se ouviram os primeiros acordes… é contagioso! Não dá para ficar sem bater o pé! A noite continuou com muita gente a mostrar as suas qualidades dançantes! Uma vergonha para os Europeus que “mal mexiam o rabinho”! 🙂

SÁBADO: o strip pirotécnico

A noite de sábado prometia. Há vários dias que se andava a programar esta noite. A grande atracção era o Luso. Não, não fomos à central de distribuição de águas! O Luso é um dos mais conhecidos cabarets da capital moçambicana. Situado em plena zona histórica da cidade, mesmo junto ao Porto de Maputo, o cabaret é ponto de encontro para grandes noites de diversão!

Há uns meses atrás, quando fui à Ilha de Inhaca, a viagem de barco foi única e exclusivamente sobre o strip “flamejante” que uma menina tinha apresentado no Luso. Todas as vezes que saímos em Maputo este espectáculo era assunto recorrente… tanto que para todos os que não assistiram da primeira vez ao show, uma visita ao fogo-de-artifício era quase obrigatório!

Nem mais, lá fomos nós! Não há diferenças de raça ou de classe… lá todos são iguais e há apenas dois tipos de pessoas: os que querem lá ir para ver o espectáculo… e os outros que vão lá para o engate!

Tinham-me avisado que o ambiente era pesado, mas eu queria ver como era! Logo à entrada uma menina faz-me uma primeira “inspecção”… “Perigoso…” foi o resultado da busca dela!

Seguimos para um local menos movimentado à espera do show. Enquanto esperávamos fomos todos (rapazes e raparigas) inspeccionados várias vezes! Se calhar elas queriam ver se tínhamos alguma arma preparada para disparar!!! 😉 São umas malandras! 🙂

O espectáculo lá começou! Varão, vela acesa, fogo, labaredas. Mais não posso dizer… isto é lido por crianças!!! Só posso afirmar que a técnica da stripper com a vela acesa era, de facto, FANTÁSTICA!

DOMINGO: Dia da Polícia

Com o fim-de-semana já a terminar, faltava-me a habitual saltada ao Game, o Jumbo cá da zona, para as compras do mês.

O meu passaporte e a carta internacional de condução tinham ficado na carteira da Rita. Ora bem, andava sem documentos nenhuns! Já ia a caminho do supermercado quando sou mandado parar pela polícia.

Bom dia, o Senhor cometeu uma infracção grave!” – disse o polícia.

EU? Onde?” – exclamei eu… mesmo desconfiando que tinha mesmo feito algo de errado.

Sim, virou à esquerda no final desta avenida na faixa onde tal não é permitido” – explicou, muito calmamente, o polícia.

Na realidade, fiquei a perceber para que servem as vias laterais da Avenida Salvador Allende. Tal como em Lisboa, na Avenida da Liberdade, esta grande avenida tem faixas laterais, separadas das faixas de circulação normais, para se proceder nas viragens à esquerda ou à direita. Com o erro assumido, não tive outra opção se não pagar a multa. Mas, ao contrário do que acontece em Portugal, as multas são pagas, pelo menos com esta polícia (espécie de PSP), junto do Comando Central. Para lá chegarmos temos de nos fazer acompanhar pelo polícia que nos multou! Aqui em Moçambique, a polícia é muito dada a favorezinhos e pequenos subornos (os refrescos como aqui se diz). A multa era de 2000 Meticais (mais ou menos 50 Euros), um preço elevado, mas que eu queria a toda a força pagar para não ter de dar um pequeno “refresco” ao polícia.

Se quer pagar temos de o acompanhar ao Comando” – explicou o polícia.

Com certeza, façam favor de entrar” – armei-me eu em esperto…

Entraram dois polícias, armados com as suas metralhadoras, para dentro do carro. Tenho que assumir que a ideia de viajar com duas armas nas mãos de dois polícias dentro do carro não é fácil!

Conversa puxa conversa, eles lá me perguntaram para onde ia. Disse-lhes que ia levar uma colega a Xai Xai e que depois seguiria para Chókwè. Disse, também, à espera que fizesse algum efeito, que trabalhava com Irmãs e com crianças órfãs (perdoem-me!!!). E não é que teve efeito.

Não entre no Comando… siga em frente! Sabe, Sr. Emanuel, há outra forma de contornar a situação” – disse um dos polícias de forma muito evasiva.

Ai sim? Qual” – pergunta retórica minha!

O Sr. Emanuel é que sabe!” – a resposta, estava-se mesmo a ver, era a pedir um refresco em troca da multa.

Não sei como consegui, mas encostei o carro, virei-me para trás e, vendo que a probabilidade de eles saírem do carro era muita, disse: “Só tenho 140 meticais aqui comigo. Mas isto é tão pouco…” Mais uns dedos de conversa e eles lá se conformaram com os 140 Meticais. É triste, eu sei, mas a vontade que eles tinham que eu fosse pagar de facto a multa também não era muita!

O Hugo e a Rita, que me seguiram desde que fui mandado parar, só se riam da situação! Embora reprovassem o refresco dado…

Mas, a saga policial ainda não tinha acabado! Não, há sempre uma segunda parte!

Já na estrada a caminho do Xai Xai, a Nacional 1, fui mandado para novamente no meio de uma povoação. Não sei se seria Palmeira ou 3 de Fevereiro, mas que vinha distraído na conversa era verdade!

Boa tarde! Convido-o a sair e verificar a velocidade a que entrou nesta localidade” – que convite tão amável por parte do polícia!

Entrei a 69 km/h quando o máximo era apenas 60. Desta não havia forma de me escapar à multa. Foram só 9 quilómetros/hora de diferença, mas não havia escapatória! 1000 Meticais de multa. Estes, pelo menos, passam recibo pelo que a probabilidade de o dinheiro ir parar a mãos sujas é menos provável!

Bem, já sei, quando vir a placa a dizer “proibido circular a mais de 60 km/h” vou-me lembrar sempre dos meus belos 1000 Meticais de multa!

Não paguei na primeira vez… paguei à segunda!

Como diz um amigo meu, “são vidas!


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