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A diferença…

A diferença entre o que consideramos ser civilizado e não civilizado está topicamente standardizado. Há sempre algumas oscilações de variam de país para país, de sociedade para sociedade e de cultura para cultura. Há contudo, standards mínimos. Por exemplo, ceder o lugar num machibombo a uma pessoa idosa. Mas às vezes, as pessoas conseguem surpreender-me! O machibombo ia cheio e por isso cedi o meu lugar a uma senhora de idade que não andava, nem se quer tinha cadeira de rodas. Simplesmente arrastava-se pelo chão. Subir para o machibombo foi como escalar uma montanha! Levantei-me e disse: “pode sentar-se aqui!“. As pessoas à minha volta comentaram a situação. Não percebi nada pois falavam Changana.  Fiquei alguns minutos de pé.

Surge, então, a cobradora que tinha assistido à situação toda. Pedi-lhe o meu bilhete e ela disse-me:

Se quiseres peço a alguém que se levante para te poderes sentar“.

Não obrigado!” – respondi.

Não percebi bem aquela atitude! Será que foi uma forma de dizer obrigado pela situação anterior… ou foi mais uma vez a minha cor de pele a falar mais alto?!

Imagem do dia #150

O céu parece tirado de um quadro de algum pintor de renome… azul carregado… nuvens realistas… contudo, a parte de baixo não saiu de nenhuma obra prima do século XVII, XVIII ou XIX! É a imagem da realidade! A realidade de um país africano, Moçambique!

No interior árido da Província de Gaza, relativamente perto de Maputo, a civilização está a séculos de distância. Não há nada e as pessoas sobrevivem em situações limites.

O controlo

Há coisas que enervam mesmo o mais santo de nós! E, há coisas, que só podem acontecer em países como Moçambique!

Na quinta-feira passada ia a caminho de Maputo no PUTCO, a linha regular de machibombos (autocarros) que liga Chókwè à capital moçambicana.

Os controlos policiais são uma constante na estrada. Em parte, é uma herança do período da Guerra Civil onde era preciso controlar a movimentação de pessoas, bens e militares/guerrilheiros. Em parte, devido ao excesso de zelo que a Polícia tem sobre os condutores… especialmente se forem estrangeiros!

Se a primeira parte do “em parte” já não faz sentido, a segunda parte do “em parte” é um excelente pretexto para se passar uma multinha (que muitas vezes são correctamente aplicadas). É um excelente pretexto também para se conseguir um “refresco“. Ou seja, corrupção em todo o lado!

Como estava a descrever, na quinta-feira ia o machibombo a chegar a Marracuene, uns 30 e poucos quilómetros antes de Maputo, quando somos mandados parar pela Polícia.   A princípio pensei que fosse devido ao excesso de velocidade que o autocarro levava. Mas não, não foi devido a isso! E, afinal, quem nos mandou para foi o Exército e não a Polícia. Entraram no autocarro. Percorreram o corredor central de uma ponta a outra. Dois militares fardados e um, ao que parece, à civil.

Não está aqui o meu irmão” – foi a frase que o militar à civil pronunciou. Voltou para trás e o militar fardado disse:

Vai-lhe pedir a identificação” – ordenou um militar ao outro.

Não liguei muito à conversa até o tal militar à civil se ter aproximado junto de mim e me perguntar:

Desculpe, será que me poderia mostrar a sua identificação?

É o cúmulo! Eu fui o único a ser identificado e era, também, o único branco no autocarro!

Fiquei chateado, é certo, mas não tinha outra opção. Sou estrangeiro e eles são a autoridade!

Apenas perguntei porque razão teria de ser eu o único a mostrar o meu passaporte. A resposta foi uma estranha:

Quer que eu mostre a minha identificação também?!

Dei o passaporte para a mão. Em vez de verificarem se estava legal em Moçambique, ou seja, se tinha o visto em dia e os selos no passaporte, não! Foram ver o meu nome e a minha fotografia! Bem que o passaporte podia ser falso que nunca iriam dar conta!

Mas, a saga continua…

O polícia manda parar o carro que eu conduzia. Seria normal que me quisesse fazer um teste de alcoolémia. Era sexta-feira e eu tinha saído de um bar. Mas não. Um dos faróis do carro estava fundido. Saí do carro para verificar. Aqui, o polícia não esteve com meias medidas:

Senhor Alberto, sabe que podemos resolver isto de outra maneira!

Sim, mas eu quero saber quanto é a multa!

São 1000 Meticais, mas sabe que há sempre outra forma de sair daqui!”

Sim, mas eu quero mesmo pagar a multa. Chame lá o carro de patrulha para nos acompanhar à Esquadra.

Senhor Alberto, pague um “refresco” e poderá ir-se embora!

Apesar de descarado, não posso dizer que o polícia fora mal-educado. Voltei para dentro do carro e o Aldo iniciou um longo, longo discurso…

Sabe Senhor polícia, nós somos pessoas de princípios, e já poucas pessoas com princípios aqui! Por isso queremos mesmo pagar a multa!

O discurso continuou e eu e o Aldo estávamos dispostos a esperar o tempo que fosse necessário para que a patrulha chegasse.

O discurso continuou até que a parelha de polícias lá se apercebeu que da nossa parte não teria sorte e jamais veria um “refresco“!

Então… sigam lá!” – disse o polícia por último!

Não é de fazer perder a paciência a um santo?!

PS: até parece que nestes últimos posts tenho adoptado uma postura muito anti-moçambicana, mas tal não é verdade! O que é verdade é que atingi o ponto de saturação! Saturação para todo o tipo de faltas de educação que são tão comuns por aqui! Eles não querem aprender e levam a mal quando lhes ensinamos! Não há paciência que resista!

SUGESTÃO: sair de Moçambique regularmente!

Culto de Personalidade?!

Este Moçambique tem vindo a surpreender… pela negativa muitas vezes!

Este tipo de democracia encapuçada esconde o que na realidade se consideraria um Estado de partido único ou uma ditadura.

Armando Emílio Guebuza foi reeleito para o seu segundo mandato como Presidente da República de Moçambique recentemente. A eleição foi elogiada pelos observadores internacionais como tendo sido “livre e transparente“. Na realidade, o acto de votar pode ter sido assim mesma, mas tudo o que ficou atrás dela, desde a campanha, ao registo dos votos e às movimentações da Comissão Nacional de Eleições, foram tudo menos “livres e transparentes“!

A investidura de Guebuza decorreu ontem, dia 14 de Janeiro. Estiveram presentes vários Chefes-de-Estado e de Governo de vários países africanos, muitos deles de Estados nada democráticos. A grande presença foi a do Presidente Sul-africano, Jacob Zuma.

Até aí tudo bem.

O que realmente é surreal é o Governo de um dos países mais pobres do mundo ter decretado tolerância de ponto aos trabalhadores para poderem assistir à investidura do Presidente.

Num país onde a maior parte da população não tem acesso a electricidade, logo, não tem acesso à televisão; num país onde a produtividade da população activa é baixíssima e onde a riqueza continua extremamente mal distribuída e onde a pobreza come cada vez mais cidadãos, como explicar que a uma quinta-feira seja decretado tolerância de ponto?! Hoje é sexta-feira e acredito que muita gente aproveitou para fazer um fim-de-semana prolongado.

Não precisamos de andar muito para trás na História para encontrar situações de culto de personalidade que nos façam lembram a situação de ontem… não sou o único a pensar nisto… http://oficinadesociologia.blogspot.com/2009/06/culto-de-personalidade.html 

Quem quer ser Presidente?

Hoje foi dia de eleições.

A cidade acordou muito calma. Confesso que estava à espera de grande agitação por parte das diferentes caravanas políticas… mas, enganei-me! Não houve festa, nem mesmo depois do fecho das urnas. Ao contrário de Portugal, o dia de eleições em Moçambique tem lugar a um dia de semana. Uma grande razão leva a que a cruzinha no boletim de voto tenha calhado a uma quarta-feira: caso o dia do escrutínio tivesse sido a um Domingo, muita da população não teria ido votar. Ficariam em casa ou a trabalhar nas suas machambas (hortas). Sendo a um dia de semana, em que a população se desloca para trabalhar, o Governo decreta dia de tolerância e todos podem faltar ao trabalho para exercerem o direito de cidadania. Na prática, é mais um dia de feriado!

Fiquei também surpreendido com o cumprir religioso do dia de reflexão. Não houve manifestação nenhuma no dia anterior às votações! Um comportamento extremamente civilizado quando comparado com as cenas de pancadaria e violência com que as várias caravanas nos presentearam ao longo da campanha eleitoral.

Hoje, entre a estranha calmaria em Chókwè (tanta calma que quase nenhum chapa circulava) dava para ver os dedos pintados de preto. Cada eleitor, depois de votar, molha o dedo indicador direito em tinta preta, uma forma muito prática de garantir que ninguém vota duas vezes! E como a tinta é de alta duração, a possibilidade de alguém colocar uma cruzinha pela segunda vez é, praticamente, nula.

Muito presentes foram, também, os observadores internacionais. Todas as instituições reconhecem a evolução de Moçambique nos últimos anos. Apesar de só há pouco mais de 10 anos estar consagrado constitucionalmente em Moçambique um regime multipartidário, o país tem mostrado avanços na cidadania política. É verdade que Moçambique continua a ser governado pelo mesmo partido desde a transferência de poderes em 75, é verdade, também, que há desigualdades de acesso ao poder, que o partido é confundido com a política e que o cartão do partido abre muitas portas ao seu portador. Mas, como me dizia hoje alguém na Aldeia de Chiaquelane “só quando nós formos para debaixo de terra Moçambique será uma grande Nação! Quando os velhos morrerem, quando acabar a corrupção… os mais novos como o Zézito [um dos alunos do Orfanato onde trabalho] serão a nova força do país!“.

Aqui está uma mensagem cheia de esperança! A juventude!

Vamos confiar que o novo Governo saído destas eleições (Moçambique pauta-se por um sistema Presidencialista, onde todo o poder emana do Presidente da República, ao contrário do sistema híbrido português, onde se misturam os poderes do Presidente da República e do Governo, eleitos separadamente, mas onde há uma forte influência do Parlamento) venham pôr ao dispor da juventude todos os meios para que esta possa ser uma força activa no futuro, uma força capaz de mover este país, que ajude na real erradicação da pobreza, do HIV/SIDA e da malária; que lute por uma distribuição equitativa da riqueza pela população e que ajude no rápido desenvolvimento do país como um todo, e não apenas da região sul onde se situa a capital.

Vale a pena recordar que em 1960, Moçambique era um dos mais desenvolvidos e ricos Estados de África. Vale a pena pensar que muitos dos planos de desenvolvimento do país ainda podem ser reaproveitados; vale a pena pensar que Moçambique pode saltar do fundo da lista dos países mais atrasados e subdesenvolvidos do Mundo. Vale a pena apostar em Moçambique!

 O bem do país é o que todos desejamos… quem será o próximo guia?!

Quem será o próximo guia?

Trilogia: carne + fogo-de-artifício + polícia

Há certas situações que têm de ser contadas! Especialmente se forem passadas em países que não o nosso.  O fim-de-semana passado prometia ser bem activo, com jantares, festas e passeios por Maputo à mistura! E activo foi ele… demais até!

SEXTA: no Paraíso das Carnes!

Na sexta-feira à tarde parti de Chókwè em direcção a Maputo com a nova voluntária que está em Xai Xai e que em Novembro virá trabalhar no orfanato onde estou. A Mariana já precisava de “banho de civilização”, pois desde o momento em que chegou até ao fim-de-semana passada (3 semanas), ainda não tinha saído do Xai Xai. A cidade é capital de província… mas deixa muito (tudo) a desejar! Como já devem ter percebido, ir a Maputo é, para os que vivem no meio do mato, uma grande necessidade e, ao mesmo tempo, um grande luxo!

Logo na sexta à noite estava marcado o jantar de aniversário do Aldo. Uma verdadeira mesa multicultural, onde as relações internacionais estavam a funcionar plenamente! Era em português, em inglês, em flamengo, em italiano… eram Portugueses, Belgas, Australianas, Suíças, Moçambicanos, Italianos… no fundo, uma micro Babel!

O restaurante, a Esplanada do Kalu’s, carinhosamente apelidada por nós de Paraíso das Carnes, é, como o nome indica, uma esplanada que tem lá dentro uma espécie de talho. Escolhem-se as carnes, os empregados vão grelha-las no centro da esplanada (estão a ver com que cheiro saem de lá as roupas?!?!?!) e depois trazem-nos o banquete à mesa!

Como devem imaginar, grandes jantares com muita gente são sempre propícios a que as “pontas” se desliguem “do centro” da mesa, acabando cada grupinho por seguir para um local diferente no fim da jantarada.

O meu destino foi um bar, Mafalala Libre, na Mao Tzé Tung, onde estava programado um concerto de Marrabenta, a música “nacional” de Moçambique, cantada pelo “pai” deste estilo musical. Entrámos, o ambiente estava porreiro e cedo se ouviram os primeiros acordes… é contagioso! Não dá para ficar sem bater o pé! A noite continuou com muita gente a mostrar as suas qualidades dançantes! Uma vergonha para os Europeus que “mal mexiam o rabinho”! 🙂

SÁBADO: o strip pirotécnico

A noite de sábado prometia. Há vários dias que se andava a programar esta noite. A grande atracção era o Luso. Não, não fomos à central de distribuição de águas! O Luso é um dos mais conhecidos cabarets da capital moçambicana. Situado em plena zona histórica da cidade, mesmo junto ao Porto de Maputo, o cabaret é ponto de encontro para grandes noites de diversão!

Há uns meses atrás, quando fui à Ilha de Inhaca, a viagem de barco foi única e exclusivamente sobre o strip “flamejante” que uma menina tinha apresentado no Luso. Todas as vezes que saímos em Maputo este espectáculo era assunto recorrente… tanto que para todos os que não assistiram da primeira vez ao show, uma visita ao fogo-de-artifício era quase obrigatório!

Nem mais, lá fomos nós! Não há diferenças de raça ou de classe… lá todos são iguais e há apenas dois tipos de pessoas: os que querem lá ir para ver o espectáculo… e os outros que vão lá para o engate!

Tinham-me avisado que o ambiente era pesado, mas eu queria ver como era! Logo à entrada uma menina faz-me uma primeira “inspecção”… “Perigoso…” foi o resultado da busca dela!

Seguimos para um local menos movimentado à espera do show. Enquanto esperávamos fomos todos (rapazes e raparigas) inspeccionados várias vezes! Se calhar elas queriam ver se tínhamos alguma arma preparada para disparar!!! 😉 São umas malandras! 🙂

O espectáculo lá começou! Varão, vela acesa, fogo, labaredas. Mais não posso dizer… isto é lido por crianças!!! Só posso afirmar que a técnica da stripper com a vela acesa era, de facto, FANTÁSTICA!

DOMINGO: Dia da Polícia

Com o fim-de-semana já a terminar, faltava-me a habitual saltada ao Game, o Jumbo cá da zona, para as compras do mês.

O meu passaporte e a carta internacional de condução tinham ficado na carteira da Rita. Ora bem, andava sem documentos nenhuns! Já ia a caminho do supermercado quando sou mandado parar pela polícia.

Bom dia, o Senhor cometeu uma infracção grave!” – disse o polícia.

EU? Onde?” – exclamei eu… mesmo desconfiando que tinha mesmo feito algo de errado.

Sim, virou à esquerda no final desta avenida na faixa onde tal não é permitido” – explicou, muito calmamente, o polícia.

Na realidade, fiquei a perceber para que servem as vias laterais da Avenida Salvador Allende. Tal como em Lisboa, na Avenida da Liberdade, esta grande avenida tem faixas laterais, separadas das faixas de circulação normais, para se proceder nas viragens à esquerda ou à direita. Com o erro assumido, não tive outra opção se não pagar a multa. Mas, ao contrário do que acontece em Portugal, as multas são pagas, pelo menos com esta polícia (espécie de PSP), junto do Comando Central. Para lá chegarmos temos de nos fazer acompanhar pelo polícia que nos multou! Aqui em Moçambique, a polícia é muito dada a favorezinhos e pequenos subornos (os refrescos como aqui se diz). A multa era de 2000 Meticais (mais ou menos 50 Euros), um preço elevado, mas que eu queria a toda a força pagar para não ter de dar um pequeno “refresco” ao polícia.

Se quer pagar temos de o acompanhar ao Comando” – explicou o polícia.

Com certeza, façam favor de entrar” – armei-me eu em esperto…

Entraram dois polícias, armados com as suas metralhadoras, para dentro do carro. Tenho que assumir que a ideia de viajar com duas armas nas mãos de dois polícias dentro do carro não é fácil!

Conversa puxa conversa, eles lá me perguntaram para onde ia. Disse-lhes que ia levar uma colega a Xai Xai e que depois seguiria para Chókwè. Disse, também, à espera que fizesse algum efeito, que trabalhava com Irmãs e com crianças órfãs (perdoem-me!!!). E não é que teve efeito.

Não entre no Comando… siga em frente! Sabe, Sr. Emanuel, há outra forma de contornar a situação” – disse um dos polícias de forma muito evasiva.

Ai sim? Qual” – pergunta retórica minha!

O Sr. Emanuel é que sabe!” – a resposta, estava-se mesmo a ver, era a pedir um refresco em troca da multa.

Não sei como consegui, mas encostei o carro, virei-me para trás e, vendo que a probabilidade de eles saírem do carro era muita, disse: “Só tenho 140 meticais aqui comigo. Mas isto é tão pouco…” Mais uns dedos de conversa e eles lá se conformaram com os 140 Meticais. É triste, eu sei, mas a vontade que eles tinham que eu fosse pagar de facto a multa também não era muita!

O Hugo e a Rita, que me seguiram desde que fui mandado parar, só se riam da situação! Embora reprovassem o refresco dado…

Mas, a saga policial ainda não tinha acabado! Não, há sempre uma segunda parte!

Já na estrada a caminho do Xai Xai, a Nacional 1, fui mandado para novamente no meio de uma povoação. Não sei se seria Palmeira ou 3 de Fevereiro, mas que vinha distraído na conversa era verdade!

Boa tarde! Convido-o a sair e verificar a velocidade a que entrou nesta localidade” – que convite tão amável por parte do polícia!

Entrei a 69 km/h quando o máximo era apenas 60. Desta não havia forma de me escapar à multa. Foram só 9 quilómetros/hora de diferença, mas não havia escapatória! 1000 Meticais de multa. Estes, pelo menos, passam recibo pelo que a probabilidade de o dinheiro ir parar a mãos sujas é menos provável!

Bem, já sei, quando vir a placa a dizer “proibido circular a mais de 60 km/h” vou-me lembrar sempre dos meus belos 1000 Meticais de multa!

Não paguei na primeira vez… paguei à segunda!

Como diz um amigo meu, “são vidas!

Imagem do dia #093

Maputo foi uma cidade onde a criatividade dos arquitectos durante as décadas de 50, 60 e 70 mais marcou a paisagem de uma cidade Portuguesa.

Ao contrário do que acontecia na Metrópole, e em especial em Lisboa, os arquitectos em Moçambique tiveram uma liberdade única para criar edifícios de estilo arrojado tendo em conta a época em que fora construídos. Aqui fica o exemplo do Edifício do Ministério da Saúde, situado em plena Av. Eduardo MondlaneMISAU, Maputo.

Vida de expatriado

Quando cheguei ao Palácio das Necessidades em Lisboa, onde o Ministério dos Negócios Estrangeiros Português está sedeado, e me trataram por expatriado tive a sensação de que estavam a falar com alguém que não tinha pátria. Um estrangeiro, um estranho!

Claro que sabia o significado da palavra, nunca pensei foi na força da palavra quando dirigida a mim!

E como expatriado lá voei para Moçambique onde vim desaguar num mar de expatriados que, de melhor ou pior forma, lá vão ultrapassando as burocracias e as idiossincrasias de se viver num país que não é o nosso.

Ser branco é alvo de atenções num país Africano. Branco, ou mulungo como se diz em moçambiquês, é sinónimo de dinheiro e bem-estar social. Por isso, nada melhor que tentar extorquir o molungo rico!

Na rua, pelo menos em Maputo e nas grandes áreas turísticas,  somos constantemente “atacados” com mil e uma ofertas. A mim, por exemplo, já me tentaram impingir vários iPods, computadores portáteis, LCDs, câmaras digitais, bicicletas, GPS… até, pasmem-se, já me ligaram para o meu telemóvel para negociarem a venda do carro que utilizo em Moçambique! Até hoje não descobri quem passou indevidamente o meu número.

É engraçada a forma tão zelosa com a qual a Polícia olha pelos “interesses” dos turistas molungos. Andar de carro e não ser mandado encostar pela Brigada de Trânsito é o menos! Pior quando gostam de controlar todas as pessoas que seguem no carro ou quando nos mandam parar nos passeios (sim, quando andamos pela cidade) e nos pedem o passaporte. Não podemos recusar! Eles são a autoridade! Tudo para ver se apanham algum estrangeiro em situação irregular e daí consiguam tirar partido da situação!

Papéis e papeizinhos…

Em Moçambique ainda há muito aquela cultura de “são precisos mil e um papelinhos” para se obter qualquer coisa. Faltar uma mísera cópia de um documento secundário é suficiente para parar todo o processo. Obter um visto de trabalho ou de residência é mais difícil que obter uma audiência com o Papa em Roma!

Na fronteira é que são elas. A todos aqueles que são contra a livre circulação de pessoas entre as fronteiras da União Europeia aconselho uma visita às aduanas deste lado do mundo… É o carimbo, são as filas, é o impresso da gripe… bem, uma parafernália de actos e mais actos! Mais uma vez, tenho pena que tanto cuidado não reverta num trabalho mais profissional das autoridades! O meu passaporte não é uma pedra para andar a ser atirado de guiché em guiché!!! Já assiste a uma cena em que o funcionário da fronteira retira o selo de entrada em Moçambique num passaporte, acabando por rasgar parte de uma folha deste documento… “Desculpe!”

No Chókwè, a vida de expatriado assume contornos que em Maputo não são tão evidentes. Em primeiro lugar porque a capital moçambicana é povoada por milhares de estrangeiros; em segundo,  porque a oferta desta cidade supera em todos os aspectos o resto do país. Em Chókwè, a comunidade estrangeira reúne-se no mesmo restaurante para almoçar e jantar, sendo poucos os que se aventuram nos restantes cafés da cidade! As compras ou são feitas em Maputo, Meca do consumo para quem vive no meio do mato, ou então na loja do Português. Há quem lhe chame Pingo Doce, outros Delicatesse! A loja tem mil e um nomes, tudo para poder personificar o único sítio na raio de duas centenas de quilómetros onde é possível encontrar alguns produtos mais portugueses! Na realidade, a loja tem o simples nome de “O Regadio”.

Depois, não nos podemos esquecer que vivemos num dos 10 países mais pobres do mundo, o que nos obriga a seguir religiosamente alguns conceitos de segurança que em Portugal simplesmente nem pensamos neles! Não conduzir de noite, verificar a data de validade de todos os produtos ou confirmar e reconfirmar a conta no final de um jantar (mesmo num sitio dado como de “segurança”) são algumas das muitas restrições ou obrigações às quais devemos obedecer.

No final de contas, convém relembrar sempre que não estamos no nosso país. Eu não mando nada aqui! Moçambique rege-se pelas suas próprias regras e pela sua própria cultura… não vale a pena barafustar muito. Mas, para evitar que todos os expatriados fiquem aculturados, não me esqueço das palavras que o Administrador das Águas de Moçambique me disse: “os expatriados não deviam permanecer mais do que dois anos em países como, por exemplo, Moçambique. As nossas referências baixam de nível, as nossas expectativas idem aspas”.

Eu prometo que quando voltar para Portugal não vou com as minhas referências baixas e que me vai saber muito bem abandonar (espero que não definitivamente!) a máscara do expatriado!

Qual o teu nickname?

Se há coisas engraçadas neste país, os chapas são uma delas!

Os chapas, como já tive a oportunidade de explicar em posts anteriores, são o meio de transporte colectivo mais comum por estas bandas. Não é um exclusivo de Moçambique, mas os de cá são pérolas! Pérolas no estilo de condução (… um diamente bruto…!!!) e pérolas nos nomes que dão a cada maquineta!

Ora aqui segue uma lista com alguns nomes que já encontrei nos chapas:

  • Bébé do Chókwè
  • Sim, vamos subir
  • Xenofobia
  • Deus é que sabe
  • O Transportador
  • Macoya
  • Small boy
  • Quem dorme ao volante, acorda no céu
  • Foi boa ideia bébé do Chókwè
  • Sempre a subir
  • Mete dentro
  • Vais sentir a dor
  • Chambalito
  • James Bond
  • White Bull
  • Tribalista
  • Is not cosy
  • O arrependimento vem depois
  • Somos três
  • New life
  • Gondzilla
  • Amigo
  • O futuro da vida é o amor
  • Love

Ora digam lá se isto não são carros com pinta… a cair aos bocados, mas com pinta! 😉

No chapa... © Inês A.

ASMtv: há quem viva assim…

Ainda há quem viva assim… Chongoene, norte de Xai Xai


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