Posts Tagged 'Colonialismo'

A visão Soviética da expulsão dos Portugueses em 75

Recupero aqui a notícia que o jornal “O País” publicou a 23 de Abril de 2009.

Samora tratou os portugueses de forma dura.

Diplomatas soviéticos, que deram início às relações diplomáticas entre URSS e Moçambique, criticam a política de Samora Machel face à população portuguesa branca, sublinhando que, nesta área, o antigo presidente moçambicano se comportou de forma semelhante ao ditador soviético José Estaline. 

De forma dura, como Estaline, Samora Machel tratou os portugueses que viviam em Moçambique. Muitos deles receberam com entusiasmo os combatentes pela independência, quando entraram em Lourenço Marques, e estavam prontos a cooperar de todas as formas com a Frelimo”, escreve Piotr Evsiukov, primeiro embaixador soviético em Moçambique, em “Memórias sobre o trabalho em Moçambique”, a que a Lusa teve acesso. 

Também aqui se revelou o extremismo de Samora Machel.

Ele apresentou aos portugueses condições tais de cidadania e residência em Moçambique de modo a que, na sua esmagadora maioria, se sentiram obrigados a abandonarem  o país… Com a fuga dos portugueses, a economia de Moçambique entrou em declínio”, recorda. 

Piotr Evsiukov recorda que Machel era um convicto admirador de José Estaline. “Samora Machel falou-me várias vezes do seu apego e respeito por J. Estaline.

Durante a visita oficial de uma delegação de Moçambique à URSS, Samora Machel terminou a viagem na Geórgia. Depois das conversações com Eduard Chevarnadzé, Sérgio Vieira, membro da direcção da Frelimo, veio ter comigo e pediu-me, em nome do presidente, para arranjar um retrato de Estaline. Claro que os camaradas georgianos satisfizeram o pedido com agrado”, escreve Evsiukov.  

Arkadi Glukhov, diplomata soviético que chegou antes de Evsiukov para abrir a embaixada da URSS em Lourenço Marques, escreve: “Após o fim da segunda guerra mundial, Lisboa, tendo diante de si os exemplos da queda dos impérios coloniais da Inglaterra e França, enveredou pela via da reforma intensa do seu sistema colonial, nomeadamente no campo das relações entre raças da política social e cultural“.

Tudo isso foi levado à prática na chamada política de ‘assimilação’, cujos rastos sentimos com evidência quando chegamos a Moçambique”. Porém, continua o diplomata soviético, “esses rastos começaram a desaparecer rapidamente, principalmente depois da entrada na cidade (Lourenço Marques) das unidades militares da Frelimo e da intensificação de medidas e de todo o tipo de limitações (frequentemente inventadas) contra a população portuguesa, não obstante, em geral, ela ser leal e estar pronta a cooperar com os novos poderes”.

Segundo Glukhov, “no fim de contas, isso levou à partida em massa dos portugueses do país, o que se reflectiu de forma grave na sua vida económica e aumentou a tensão nas relações entre raças”.

in http://www.opais.co.mz/opais/index.php?option=com_content&view=article&id=762:samora-machel-portou-se-como-estaline&catid=63:politica&Itemid=273
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Relatório da ONU afirma: “Colonialismo não pode continuar a ser o bode expiatório para o atraso de África”

Finalmente a ONU reconhece oficialmente que o Colonialismo não pode continuar a ser o bode expiatório para o atraso de África.

Na próxima Assembleia Geral das Nações Unidas, a decorrer em Setembro em Nova Iorque, o Secretário-geral da organização, o Sul Coreano Ban Ki-Moon, irá apresentar um novo relatório sobre África, o seu desenvolvimento e os seus desafios. Este novo documento, da autoria do Português Rodrigo Tavares, revela-se um novo olhar sobre África.

O Continente Negro enfrenta, como todo o mundo, a crise financeira e económica que abalou as mais fortes economias mundiais. Dependente da exportação de matérias-primas como as madeiras ou o petróleo, os países africanos estão a combater a actual crise com um custo muito superior ao dos restantes Estados. Pobreza, corrupção, má gestão, guerras civis, desemprego, violência e falta de unidade e consciência nacional são alguns dos muitos problemas que cronicamente afectam a maioria dos Estados de África.

Até há pouco tempo atrás, o Colonialismo servia de bode expiatório para todo e qualquer mal que África tinha. Não havia união nacional (jamais se poderia falar em Estados Nação como no Velho Continente) pois, às custas das políticas expansionistas das potências europeias, África tinha sido dividida a régua e esquadro. Não se podia falar em desenvolvimento económico pois as velhas potências não tinham criado as condições ideais para o desenvolvimento sustentado da população. Não se podia falar em muita coisa! O Colonialismo era a razão para todo o atraso de África!

Hoje o panorama é diferente! E hoje a ONU reconhece que o Colonialismo não pode ser mais usado como forma de desculpar todo o subdesenvolvimento de África.

É verdade que este tema continua a ser tabu em muitos países do continente e que, na realidade, o período colonial deixou feridas profundas que ainda hoje têm cicatrizes visíveis em quase todos os países. É verdade que o Colonialismo é reprovável e que teve consequências no desenvolvimento de muitas jovens nações. Mas, também é verdade que o Colonialismo já acabou. Acabou em 1994 quando a África do Sul reconheceu o direito à independência da Namíbia, mas, de facto, os últimos actos de Colonialismo tiveram lugar na década de 70 do século passado. A independência das 5 antigas colónias Portuguesas neste continente encerrou o processo de colonização em África. Desde então, as nações africanas ficaram por sua conta e risco. Não foi um processo pacífico: houve muitas guerras civis pelo meio, houve muitos golpes de Estado, houve muita propaganda e houve, também, muita má gestão.

Rodrigo Tavares, o autor do relatório, revela que é uma falta de respeito os líderes africanos acusarem sistematicamente as antigas potências pelo seu atraso: “É impensável criticar os antepassados coloniais relativamente ao que está a acontecer diariamente naquele continente. Isso negligencia a própria capacidade dos africanos de serem responsáveis pelos seus actos, é uma desconsideração“, afirma a investigador.

Nem mais, os Estados Africanos e os seus líderes deixaram de ter no período colonial a desculpa para a sua situação actual. E, não é a primeira vez que este tema vem às luzes da ribalta. Recentemente, Lula da Silva, Presidente do Brasil, e Barack Obama, Presidente dos EUA, afirmaram esta mesma ideia em deslocações a alguns países africanos.

São os próprios africanos – adoptando muitas vezes discursos vitimizadores que culpabilizam o colonialismo como raiz de todos os seus problema – que patrocinam o assistencialismo. Sem ajuda da União Europeia, a União Africana dificilmente teria condições para continuar a exercer as suas funções

Apesar da oficialização desta ideia por parte da ONU ser a grande novidade do relatório, e reconhecendo que tal não será bem recebido por muitas elites africanas, pois de certa forma vai ao desencontro da ideologia defendida por alguns líderes africanos, nem todo o panorama apresentado é baseado nesta nova perspectiva. A par da actual crise, que tanto tem afectado África – só para se ter uma ideia, o relatório prevê 28 milhões de desempregados em 2009, 110 milhões de cidadãos na pobreza total, 44 milhões de pessoas subnutridas além de uma descida abrupta Investimento Directo Estrangeiro – em África ainda acontecem milagres: o crescimento económico, com excepção neste período de crise, tem mantido em média uma subida superior a 5% ao ano; houve uma diminuição dos conflitos internos e a percentagem de crianças a frequentar a escola tem subido consideravelmente. Alguns Estados Africanos têm prosseguido com excelentes políticas de boa governação (vejam-se os casos da Namíbia, Botsuana ou Cabo Verde).

Mas, se a ajuda internacional continuar a baixar como tem acontecido até ao momento, os “Objectivos de Desenvolvimento do Milénio” jamais poderão ser alcançados. Tal como diz o investigar autor deste novo relatório, a Europa tem um papel fundamental em todo o processo de desenvolvimento de África. Pondo desde já de lado a questão do Colonialismo, “a Europa está apenas a 20kms de distância” de África e, além disso, há uma encruzilhada histórica que liga e ligará os dois continentes. Aos muitos interesses encómicos europeus na região, sempre houve uma atenção especial com África (especialmente de países como Portugal, a Inglaterra ou a França). A Cimeira Europa – África (organizada sempre por iniciativa de Lisboa) é um dos exemplos que põe África no topo das prioridades de desenvolvimento humano dos europeus.

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Este post baseou-se nas reportagens do “Expresso” e do semanário moçambicano “A Verdade”

Saudosismo, esperança ou conservadorismo?!

Bandeira de MoçambiqueHoje tive uma conversa muito interessante.

No pátio da casa do Sr. Xavier, antigo director da Escola Secundária de Chókwè, trocamos algumas frases, algumas histórias e muita História!

O Sol ia já dando lugar à Lua quando bati à porta daquele que até há poucos dias seria o meu vizinho da casa. O Sr. Xavier é professor de História,  disciplina que eu tanto gosto, e tem, como muitos Moçambicanos, um carinho especial por Portugal.

Ele contou-me como era a vida quando os Portugueses administravam o território de Moçambique. “Eram tempos diferentes, onde os Portugueses eram vistos como um povo trabalhador” iniciou o Sr. Xavier. Num misto de saudosismo, a conversa foi-se alongando. Ora ele levantava questões sobre o Portugal de hoje, ora eu perguntava coisa da História “destes dois povos”!

Assume-se como um Moçambicano orgulhoso, mas não pode deixar de se lembrar de como as coisas eram administradas noutros tempos. Explica o Sr. Xavier  que o colonialismo Português destaca-se dos demais pela forma como a população branca e negra interagia. “Havia uma separação, é claro, uns eram brancos, civilizados e europeus, outros eram negros” – concretiza o senhor professor, mas a verdade é que a miscigenação entre Portugueses de Portugal e Portugueses de Moçambique (se assim pudéssemos classificar os nascidos nos territórios da África Oriental Portuguesa na altura!) era muito grande, o que, de facto, fazia a distinção entre o colonialismo Português e o colonialismo Francês, Belga ou Inglês.

Ele mesmo, apesar de negro, diz que não pode esquecer que desde a nascença tinha o estatuto de “assimilado”, daí toda a sua educação ser “branca”. “Não comia na mesa dos Senhores [brancos], mas vi muitas vezes essa mesa e comi o que eles comiam também” esclareceu o Sr. Xavier.

Não quer passar a ideia saudosista do Império Português, nem da sua colonização, mas recorda os bons momentos que viveu com os seus colegas de turma brancos, da História de Portugal, do estilo de educação, dos escuteiros (o que ele realmente não apreciava!!!) e, repetitivamente afirmou, “da forma como os colonos brancos eram trabalhadores”.

Havia excessos, é claro, mas excessos sempre houve e esses não são desculpa para certas atitudes. Quando Moçambique se tornou um Estado independente o Sr. Xavier deixou de ser Português e passou a ser um Moçambicanos com todos os direitos e deveres! Não havia estatuto de civilizado, branco, negro ou assimilado. Mas, como em todas as revoluções há excessos, excessos que só mais tarde são rectificados. A forma como os Portugueses tiveram de abandonar o território, perdendo praticamente todos os seus pertences, é um desses excessos! “A minha mãe sempre disse que a forma como os Portugueses saíram de Moçambique não era correcta. O povo estava cá para trabalhar, e se por ventura conseguiu fazer fortuna ou se tem alguns bens de valor, tem todo o direito de os levar para a sua terra. Deus não permite tal impunidade. Se são homens de bem, mais tarde ou mais cedo serão recompensados”. A frase é grande, mas ficou gravada minha memória tal foi a forma como o Sr. Xavier a disse. Na realidade, os Portugueses estão a voltar aos poucos e a reaver, quando possível, alguns pertences que o tempo da história ainda não apagou!

A Guerra Colonial em Moçambique não foi contra os Portugueses. Foi contra os políticos e as suas políticas, contra o regime e contra a mordaça! “O 25 de Abril foi uma bênção!” exclamou o Sr. Xavier. Mas tudo o que veio depois foi uma desgraça! Não houve período de transição de poder que fosse suficiente para deixar os Portugueses sair e os Moçambicanos ocupar os lugares vagos! “Tudo foi feito à pressa: as gentes do campo vieram para a cidade, os campos de cultivo foram abandonados, muitas habitações, fábricas e infra-estruturas básicas foram destruídas. O caos!!!” Depois veio a guerra civil. Não se percebia muito bem o porquê daquela guerra. FRELIMO e RENAMO lutaram pelo poder. Só em meados dos anos noventa a guerra teve oficialmente um fim.

Hoje, Moçambique é uma jovem democracia, um país em “estado de construção” permanente que assiste a uma explosão demográfica. De pouco mais de 9 milhões de habitantes em 1975, hoje o território conta com mais de 20 milhões de habitantes. O crescimento populacional foi realmente explosivo, mas tudo o resto permaneceu num estado de puro ralenti. A economia não acompanha as necessidades da população; a agricultura de subsistência continua a ser a base desta frágil economia; os índices de pobreza, desenvolvimento, esperança média de vida, mortalidade infantil e alfabetização são dos mais baixos de todo o mundo. O Governo de Luísa Diogo cose, como diz o Sr. Xavier,  pelas agulhas do FMI. A África do Sul, grande potência do continente, continua a estender os seus tentáculos pela economia dos países vizinhos, e Moçambique não é excepção!

Mas, para Moçambique ainda há esperança! “Esta nação jovem há-de dar a volta por cima…” foi assim, com esta expressão cheia de moçambicalidade [há-de… hei-de…!] que o Sr. Xavier concluiu a sua “aula”.


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