Posts Tagged 'Zambézia'

O elo que faltava

Capa da edição de 31 de Julho do jornal "O País"Moçambique encontra-se dividido geograficamente em três grandes regiões: o Sul, constituído pelas Províncias de Maputo-Cidade, Maputo, Gaza (onde eu vivo) e Ilhambane, o Centro, constituído pelas Províncias de Sofala, Manica, Tete e Zambézia, e, finalmente, o Norte, Províncias de Nampula, Cabo Delgado e Niassa . A atravessar o país encontra-se o Rio Zambeze, um dos maiores de África e que até ontem (1 de Agosto) funcionou como barreira física entre o norte e o sul do país.

O Rio dividia o país em dois: o sul, consideravelmente mais desenvolvido, e o norte menos desenvolvido mas com um potencial turístico enorme. Contudo, faltava ao país completar a sua espinha dorsal: os 2,4 quilómetros de largura de rio que separavam as duas margens eram o elo em falta para completar o percurso da Estrada Nacional 1.

A construção de uma ponte a ligar os distritos de Caia (Sofala) e Chimuara (Zambézia) não é uma ideia recente. Ainda durante o período de Administração Portuguesa, nos anos 70, o famoso Eng. Edgar Cardoso apresentou uma proposta para a construção de uma ponte que acabasse com a necessidade de se recorrer a batelões para atravessar o rio. Em 1977, já com Moçambique independente, o Governo de Samora Machel deu ordem para as obras avançarem, contudo, passados apenas 4 anos,  os trabalhos foram interrompidos devido ao início da Guerra Civil. Em 1994, já com a Guerra terminada, o novo Governo de Joaquim Chissano volta a pôr a construção da ponte sobre o Zambeze no topo das prioridades. Sem grande sucesso, as obras foram-se arrastando devido à falta de fundos. Nem mesmo o pedido de ajuda monetária ao exterior funcionou. As más condições económicas do país levaram a que os sucessivos Governos revissem a prioridade da construção da ponte. Houve até um estudo de viabilidade económica, feito em 1999, que indicava que apenas em 2019 a construção da nova ponte seria economicamente viável.

Aos poucos, as ajudas internacionais começaram a aumentar e o sonho da construção da nova ponte voltou a ser possível. Apesar dos esforços dos sucessivos Governos, apenas em 2004 o Executivo de Armando Guebuza decreta o Projecto da Ponte do Zambeze. A travessia tinha um valor calculado de 78 milhões de Euros (mais de 28 mil milhões de Meticais na altura) e foi financiada pelo próprio Estado Moçambicano e pelas agências de cooperação da Itália, Suécia, Japão, União Europeia e Banco Mundial.

O concurso público internacional para a construção da travessia seleccionou o consórcio Português Mota & Engil/Soares da Costa.

A construção daquela que é considerada a maior obra pública do pós-independência contou com uma força de cerca de 500 homens.

Apenas dois anos e meio após o início das obras, a construção da ponte é concluída. Este feito, considerado vital para o desenvolvimento de Moçambique, vai pela primeira vez ligar o país de norte a sul por estrada asfaltada.

A obra em si

Construção da Ponte. Fonte: Jornal O PaísA nova Ponte sobre o Rio Zambeze, baptizada de Ponte Armando Emílio Guebuza, em homenagem ao actual Presidente da República, tem aproximadamente 2,4 quilómetros de extensão e 16 metros de largura. A nova travessia foi construída de forma a poder continuar a ser utilizada mesmo em caso de cheias (recorde-se que a região do Vale do Zambeze é propícia a cheias). A tecnologia empregue na construção desta ponte foi considerada “de ponta ao nível do continente africano“. Grande parte do equipamento utilizado foi importado da Europa.

Desafios e polémicas

Antigo batelão. Fonte: Jornal O PaísA nova travessia alterou o quotidiano das populações locais. Se durante o período de construção houve um aumento da taxa de empregabilidade e uma pequena explosão económica nas duas localidades onde a ponte começa e termina, hoje assistimos ao contrário. Os trabalhadores já abandonaram o local e o comércio que floresceu nas duas margens à custa do aumento de trabalhadores hoje não encontra mais procura.

Por outro lado, a nova ponte veio diminuir os tempos de ligação entre as duas margens e entre as várias capitais de província. Até ontem, a travessia era efectuada com recurso a um batelão. Em caso de avaria, a travessia de carros só podia ser efectuada por desvios que podiam levar dias a percorrer: um através da Província de Tete e outro atravessando o Malawi. Ambos implicavam várias centenas de quilómetros de desvio.

Como em todas as grandes obras, as críticas são sempre bem audíveis. No caso desta ponte, a principal crítica recai sobre o seu próprio nome! Afonso Dhlakama, líder do maior partido da oposição, a RENAMO, e concorrente às Eleições Presidenciais deste ano, afirmou recentemente “Eu não gosto de dar nomes, porque eu não sou comunista. Esta é a filosofia dos comunistas que (basta) construir um prédio, passa a ser nome do Presidente, construir uma barraca passa a ter nome do primeiro-ministro“.

 

Críticas à parte, a abertura da travessia trará benefícios evidentes para todo o desenvolvimento de Moçambique e para a “consagração da integridade territorial” de um dos mais estáveis Estados de todo o continente africano.

Anúncios

Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 44 outros seguidores

Anúncios