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Portugal na TV Moçambicana

Hoje tive um privilégio especial: ver o telejornal às 20h!

Sim, um privilégio porque não tenho televisão em casa e já que estou fora aproveito para ter acesso a este luxo!

Os 45 minutos do Jornal da Noite do canal privado STV deram bastante destaque a Portugal.

José Sócrates está, como todos devem saber, de visita oficial a Moçambique. Hoje, o Primeiro-ministro visitou a Barragem de Cahora Bassa (a 5ª maior barragem hidroeléctrica do mundo construída por Portugal ainda antes da independência do país).  A barragem, que é a principal de Moçambique e de onde parte a espinha dorsal da distribuição eléctrica moçambicana, está localizada no centro de Moçambique, Província de Tete, e foi detida até 2006 na sua maioria (82%) pelo Estado Português. Hoje a situação é inversa, tendo Portugal apenas 15% do capital da hidroeléctrica.

Outra reportagem destacava o facto de em Portugal os peões serem multados por atravessarem a estrada fora das passadeiras. Segundo informava a notícia, vários especialistas aplaudiam a medida mas salvaguardavam que esta não poderia ser introduzida em Moçambique pois não existe no país uma política de sensibilização rodoviária à população em geral. Foram ainda comparadas as taxas de atropelamentos entre os dois países. Uma diferença abismal de várias centenas de vítimas de diferença desfavorável, claro está, a Moçambique.

Mais à frente no Jornal da Noite, de novo a notícia da constituição do novo Banco Luso-Moçambicano para o Desenvolvimento. Este, com um capital inicial de 500 milhões de US$,  poderá vir a financiar a nova travessia na Baía de Maputo, ligando a capital à vila de Catembe.

Fim do capítulo Portugal com a notícia que tinha sido hoje assinado um acordo na área das tecnologias de energias renováveis entre os dois países.

A publicidade a Portugal, onde se mostrou muito o poderio económico (!) da antiga potência administradora, esteve em alta! Quem viu este Jornal da Noite nem sequer imaginou a crise económica que a velha metrópole atravessa nesta altura…

VER TAMBÉM: https://asuldomundo.wordpress.com/2010/03/03/caixa-geral-de-depositos-reforca-presenca-em-mocambique/
https://asuldomundo.wordpress.com/2010/03/03/socrates-inicia-hoje-visita-a-mocambique-acompanhado-por-52-empresarios/
http://www.stv.co.mz/stv/
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Barragem de Massingir

Hoje passam 10 anos sobre as devastadoras cheias que assolaram a Província de Gaza. Foram cheias brutais que alagaram e destruíram tudo numa enorme região fértil e muito habitada.

Um dos grandes problemas, que poderá no futuro evitar novos desastres naturais como o que aconteceu em 2000, passa pela construção de barragens. No caso de Moçambique, há a necessidade de criar barragens gigantescas pois o terreno maioritariamente plano do sul do país não permite barragens do estilo de Cahora Bassa, na Província do Tete, no centro do país.

O grande rio de Gaza, o Limpopo, é apenas controlado pela pequena Barragem de Macarretane, junto à cidade do Chókwè.

Massingir, uma aldeia perdida no interior de Gaza, bem próximo da África do Sul, deu nome a uma outra notável obra de engenharia portuguesa: a Barragem de Massingir. Esta forma uma albufeira de proporções muito grandes. Nas suas margens tem início o Parque Nacional do Limpopo (actualmente ligado ao Kruger National Park na África do Sul).

A barragem de Massingir, situada no rio dos Elefantes, afluente principal do rio Limpopo, era uma componente importante para o desenvolvimento hidroagrícola do Vale do Limpopo, na concepção desenvolvida pelo Eng.º Trigo de Morais durante o período de colonial.

A primeira fase desse desenvolvimento consistiu na construção do regadio de Chókwè e da Barragem de Macarretane em meados da década de 1950, o que permitiu a instalação do colonato do Limpopo com famílias vindas de Portugal. A barragem de Massingir destinava-se a permitir expandir a área de rega, atendendo à quase nula capacidade de regularização de escoamentos da barragem de Macarretane.

Em meados da década de 1960, a empresa portuguesa COBA foi contratada para preparar o projecto da barragem. O projecto inicial era o de uma barragem cerca de 15 m mais baixa que a actual barragem de Massingir e com um comprimento de coroamento muito inferior aos actuais 4630 m. Quando o projecto da barragem já estava bastante avançado, registou-se uma seca gravíssima na bacia do rio Limpopo, com enormes impactos negativos no colonato do Limpopo, o que levou o Eng.º Trigo de Morais a solicitar à COBA que o projecto considerasse uma albufeira com muito maior capacidade. Daí resultou então uma barragem mais alta e bastante mais comprida, uma vez que a topografia da secção da barragem obrigou a construir um longo dique na margem direita.

A barragem de Massingir é uma barragem de terra com uma altura máxima de 46 m no vale principal, sendo a cota de coroamento de 130 m. O descarregador de cheias situa-se no encontro da margem esquerda da barragem, ficando a crista da soleira à cota 115 m e o topo das comportas (quando instaladas) à cota 125 m. Assim, enquanto as comportas não estivessem instaladas, o nível de pleno armazenamento (NPA) ficaria limitado à cota 115 m, reduzindo a capacidade da albufeira a menos de metade da capacidade com as comportas instaladas (NPA à cota 125 m). O desvio provisório do rio para a construção da barragem foi feito na margem direita do vale principal e aí foram posteriormente instaladas as duas descargas de fundo e a conduta do circuito hidráulico para a futura central hidroeléctrica. Estas três condutas podem ser fechadas por comportas ensecadeiras a montante (do lado da albufeira) manobradas a partir de uma torre de comando. Não existe qualquer outro controlo na conduta do circuito hidráulico ao passo que as duas descargas de fundo são controladas por comportas de sector do lado de jusante da barragem. Toda esta zona corresponde à tomada de água.

Um longo dique (4630 metros) situa-se à direita da tomada de água.

A barragem começou a ser construída em 1972, tendo a obra sido adjudicada à empresa Tâmega. O Dono da Obra era o Gabinete do Limpopo que tinha a sua própria fiscalização, apoiada na parte dos ensaios laboratoriais pelo LEM – Laboratório de Engenharia de Moçambique.

A partir de 25 de Abril de 1974 houve diversas perturbações no decurso da obra. A situação melhorou após a Independência, mas nessa altura verificaram-se problemas de direcção da obra (empreiteiro) e com a fiscalização, tendo a situação apenas normalizado em 1976.

Em Fevereiro de 1977, verificou-se uma grande cheia no rio Limpopo que a barragem de Massingir, ainda incompleta, não conseguiu minorar. Os trabalhos da primeira fase foram concluídos em 1977, tendo a barragem sido oficialmente inaugurada em 31 de Outubro desse ano. Ficaram para uma segunda fase a instalação das comportas no descarregador de cheias e a construção da central hidroeléctrica.

O acidente de 2007

 

O acidente ocorreu no dia 22 de Maio, 5ª feira, entre as 14h30 e as 14h45. As duas comportas de sector estavam fechadas desde as 8h da manhã. A comporta ensecadeira direita estava totalmente aberta. A comporta ensecadeira esquerda estava parcialmente fechada (situação causada pela falta de energia na barragem).

Segundo a testemunha mais próxima do local do acidente, Sr. Afonso Ngovene, guarda da barragem, que estava a escassas dezenas de metros, na margem direita das descargas de fundo, houve um processo sequencial até à rotura (de duração estimada por ele em cerca de 3 minutos – teve tempo para se abaixar e sentar):

  • Começou por ouvir um barulho que lhe pareceu ser de manobra das comportas o que achou estranho por saber que não havia energia e, por isso, as comportas não podiam ser accionadas;
  • Como o barulho continuasse resolveu aproximar-se do muro lateral direito das descargas de fundo;
  • Quando se aproximava, viu que saía uma “nuvem” ou “spray” de água ao mesmo tempo que se ouviam sucessivos ruídos, numa sequência de fortes estalidos, processo que terminou com a formação dum tremendo “repuxo”, que subiu acima do nível da cabeça dos servomotores, acompanhado dum fortíssimo “estrondo”, momento em que se pôs em fuga.

Podemos interpretar este testemunho em termos do acidente da seguinte maneira:

  • A pressão da água nas condutas das descargas de fundo criou um escape, possivelmente através do rompimento do vedante de uma junta, originando o “spray” referido pela testemunha;
  • A pressão da água foi originando em algumas zonas o colapso do betão e das armaduras de aço (sequência de estalidos fortes ouvidos pela testemunha), cuja rotura originou o sucessivo colapso em outras zonas;
  • Os blocos de betão armado, assim desligados, foram então ejectados pela pressão da água que, liberta, formou o enorme repuxo subindo a grande altura e continuando a provocar o colapso da estrutura.

 

 

Após este grave acidente, toda a barragem sofreu obras de remodelação.

NOTA: os dados técnicos sobre a Barragem e a explicação do acidente de 2007 são citações do “Relatório Final da Comissão de Inquérito ao Acidente da Barragem de Massingir, Maputo, 2007”

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