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Vida de expatriado

Quando cheguei ao Palácio das Necessidades em Lisboa, onde o Ministério dos Negócios Estrangeiros Português está sedeado, e me trataram por expatriado tive a sensação de que estavam a falar com alguém que não tinha pátria. Um estrangeiro, um estranho!

Claro que sabia o significado da palavra, nunca pensei foi na força da palavra quando dirigida a mim!

E como expatriado lá voei para Moçambique onde vim desaguar num mar de expatriados que, de melhor ou pior forma, lá vão ultrapassando as burocracias e as idiossincrasias de se viver num país que não é o nosso.

Ser branco é alvo de atenções num país Africano. Branco, ou mulungo como se diz em moçambiquês, é sinónimo de dinheiro e bem-estar social. Por isso, nada melhor que tentar extorquir o molungo rico!

Na rua, pelo menos em Maputo e nas grandes áreas turísticas,  somos constantemente “atacados” com mil e uma ofertas. A mim, por exemplo, já me tentaram impingir vários iPods, computadores portáteis, LCDs, câmaras digitais, bicicletas, GPS… até, pasmem-se, já me ligaram para o meu telemóvel para negociarem a venda do carro que utilizo em Moçambique! Até hoje não descobri quem passou indevidamente o meu número.

É engraçada a forma tão zelosa com a qual a Polícia olha pelos “interesses” dos turistas molungos. Andar de carro e não ser mandado encostar pela Brigada de Trânsito é o menos! Pior quando gostam de controlar todas as pessoas que seguem no carro ou quando nos mandam parar nos passeios (sim, quando andamos pela cidade) e nos pedem o passaporte. Não podemos recusar! Eles são a autoridade! Tudo para ver se apanham algum estrangeiro em situação irregular e daí consiguam tirar partido da situação!

Papéis e papeizinhos…

Em Moçambique ainda há muito aquela cultura de “são precisos mil e um papelinhos” para se obter qualquer coisa. Faltar uma mísera cópia de um documento secundário é suficiente para parar todo o processo. Obter um visto de trabalho ou de residência é mais difícil que obter uma audiência com o Papa em Roma!

Na fronteira é que são elas. A todos aqueles que são contra a livre circulação de pessoas entre as fronteiras da União Europeia aconselho uma visita às aduanas deste lado do mundo… É o carimbo, são as filas, é o impresso da gripe… bem, uma parafernália de actos e mais actos! Mais uma vez, tenho pena que tanto cuidado não reverta num trabalho mais profissional das autoridades! O meu passaporte não é uma pedra para andar a ser atirado de guiché em guiché!!! Já assiste a uma cena em que o funcionário da fronteira retira o selo de entrada em Moçambique num passaporte, acabando por rasgar parte de uma folha deste documento… “Desculpe!”

No Chókwè, a vida de expatriado assume contornos que em Maputo não são tão evidentes. Em primeiro lugar porque a capital moçambicana é povoada por milhares de estrangeiros; em segundo,  porque a oferta desta cidade supera em todos os aspectos o resto do país. Em Chókwè, a comunidade estrangeira reúne-se no mesmo restaurante para almoçar e jantar, sendo poucos os que se aventuram nos restantes cafés da cidade! As compras ou são feitas em Maputo, Meca do consumo para quem vive no meio do mato, ou então na loja do Português. Há quem lhe chame Pingo Doce, outros Delicatesse! A loja tem mil e um nomes, tudo para poder personificar o único sítio na raio de duas centenas de quilómetros onde é possível encontrar alguns produtos mais portugueses! Na realidade, a loja tem o simples nome de “O Regadio”.

Depois, não nos podemos esquecer que vivemos num dos 10 países mais pobres do mundo, o que nos obriga a seguir religiosamente alguns conceitos de segurança que em Portugal simplesmente nem pensamos neles! Não conduzir de noite, verificar a data de validade de todos os produtos ou confirmar e reconfirmar a conta no final de um jantar (mesmo num sitio dado como de “segurança”) são algumas das muitas restrições ou obrigações às quais devemos obedecer.

No final de contas, convém relembrar sempre que não estamos no nosso país. Eu não mando nada aqui! Moçambique rege-se pelas suas próprias regras e pela sua própria cultura… não vale a pena barafustar muito. Mas, para evitar que todos os expatriados fiquem aculturados, não me esqueço das palavras que o Administrador das Águas de Moçambique me disse: “os expatriados não deviam permanecer mais do que dois anos em países como, por exemplo, Moçambique. As nossas referências baixam de nível, as nossas expectativas idem aspas”.

Eu prometo que quando voltar para Portugal não vou com as minhas referências baixas e que me vai saber muito bem abandonar (espero que não definitivamente!) a máscara do expatriado!

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Qual o teu nickname?

Se há coisas engraçadas neste país, os chapas são uma delas!

Os chapas, como já tive a oportunidade de explicar em posts anteriores, são o meio de transporte colectivo mais comum por estas bandas. Não é um exclusivo de Moçambique, mas os de cá são pérolas! Pérolas no estilo de condução (… um diamente bruto…!!!) e pérolas nos nomes que dão a cada maquineta!

Ora aqui segue uma lista com alguns nomes que já encontrei nos chapas:

  • Bébé do Chókwè
  • Sim, vamos subir
  • Xenofobia
  • Deus é que sabe
  • O Transportador
  • Macoya
  • Small boy
  • Quem dorme ao volante, acorda no céu
  • Foi boa ideia bébé do Chókwè
  • Sempre a subir
  • Mete dentro
  • Vais sentir a dor
  • Chambalito
  • James Bond
  • White Bull
  • Tribalista
  • Is not cosy
  • O arrependimento vem depois
  • Somos três
  • New life
  • Gondzilla
  • Amigo
  • O futuro da vida é o amor
  • Love

Ora digam lá se isto não são carros com pinta… a cair aos bocados, mas com pinta! 😉

No chapa... © Inês A.

ASMtv: há quem viva assim…

Ainda há quem viva assim… Chongoene, norte de Xai Xai

Imagem do dia #081

Ainda acreditam que eles acreditam nisto?!

Ainda acreditam nisto?!

Tu também tens uma vaca?!

Tu também tens uma vaca em casa com o teu nome?

Pois, aqui em Moçambique parece ser uma tradição! Cada vaca que nasce tem direito a ser “baptizada” com o nome de alguém. Engraçado, não?

Aqui no Orfanato às vezes confundo-me quando estou perto das vacas. “Olha, lá vem a Paulinha!” Ainda penso duas vezes se quem vem é mesmo a vaca ou a Paulinha! 🙂

Em Moçambique ter uma vaca é um estatuto social, especialmente nas zonas rurais como o Chókwè ou Chiaquelane são. O gado é um bem precioso pois é o garante de alimento em caso de escassez de produto. Algumas vezes é possível extrair leite. Sim, algumas vezes apenas porque aqui o gado bovino é muito dado às magrezas! Devem ir muitas vezes ao Tallon!

Mas, se ter animais em casa é sinal de uma boa posição social, não os ter significa que a pessoa é pobre. Infelizmente, apesar de existirem muitas vacas por estas bandas (assim como cabritos e galinhas), estas encontram-se nas mãos de poucas pessoas.

Há dias morreu uma cabeça aqui no Orfanato. Quando cheguei ao curral e vi uma vaca castanha clara deitada no chão, de olhos revirados e língua de fora, só me deu vontade de rir. É mórbido, eu sei, mas aquela imagem parecia tirada de um cartoon qualquer! Na realidade, a vaca além de já ser velhinha,  estava doente há muito tempo.

“Irmã, o que faço com a vaca?” – perguntei ao telefone à Irmã Isaura que se encontrava fora nesses dias.

“Vou ligar ao veterinário e já lhe digo algo” – foi a resposta dela.

Esperei e o telefone tocou: “É para queimar a vaca e enterrar os restos“. E assim se fez… ou quase!

Fui comprar a gasolina e pedi para trazerem a vaca para um buraco na terra. Como já era tarde deixei a gasolina no Orfanato e segui para casa, dando ordens para que a vaca fosse queimada e depois enterrada…

No dia seguinte cheguei ao Orfanato e perguntei pela pobre da vaca. “Está lá!” – respondeu o Vasco. Como já devem ter percebido, o “” é uma expressão muito utilizada por estas bandas. Como era um “” curto deduzi que a vaquita estava por perto. No caminho perguntei se a vaca tinha sido TODA queimada e a resposta foi uma engraçada “há-de ver com os seus olhos Mano Beto!

O que será que tinha acontecido à vaca? Eu disse que ninguém podia cortar a carne porque a vaca morreu doente e tinham sido essas as ordens do veterinário. Para espanto meu lá estava a vaca: continuava deitada no chão, de olhos revirados e língua de fora mas, desta vez, ainda tive mais vontade de rir!!! A VACA NÃO TINHA PERNAS 😉 Estava sem as quatro pernas. Por momentos pensei “será que sem pernas a vaca arde melhor?!?!?!?” Claro que não!

Durante a noite alguém veio e cortou cirurgicamente as quatro pernas. Garantiram-me que não tinha sido ninguém do Orfanato, mas sim alguém de fora. Depois das gargalhadas por ver uma vaca sem pernas e supostamente queimada (porque razão 5 litros de gasolina só deram para chamuscar o rabo do bicho?) pedi aos meninos que estavam lá para informar os “ladrões” que se comessem aquela carne iam morrer tal e qual a vaca!

Mais umas gargalhadas… umas graçolas com a vaquita e lá a levaram para outro sítio para ser devidamente enterrada!

Estejas onde estiveres Vaca, nunca mais vou esquecer da cena… sem as pernas!

As vaquinhas!

Bye bye chapa!

É OFICIAL! Os chapas irão acabar!

Reportagem do Oje

“O Ministério dos Transportes e Comunicações de Moçambique anunciou que vai proibir o transporte público de passageiros nos “chapas” de 15 lugares a partir de Novembro, com o objectivo de garantir mais “conforto e segurança ao utentes”.
Os veículos de 15 lugares, vulgo “chapas”, alguns com os assentos propositadamente removidos para levar passageiros acima da lotação permitida, têm quase o monopólio do sector de transporte público em Moçambique, devido à incapacidade da empresa de transporte público do Estado. Mas o caos no trânsito provocado pelos “chapas” e o seu constante envolvimento em acidentes de viação estão a aumentar a pressão sobre as autoridades para disciplinar este tipo de veículos.
Para pôr termo à indisciplina nas estradas do país o director-nacional de Transporte de Superfície no Ministério dos Transportes e Comunicações de Moçambique, Olívio Pinto, afirma que os proprietários dos autocarros de 15 lugares, na verdade carrinhas, na maioria modelo Hiace, têm 90 dias para retirar os veículos do sistema de transporte público.
Os veículos em causa deverão ser substituídos por autocarros com capacidade igual ou superior a 40 lugares, nas cidades, e igual ou superior a 25 lugares nas rotas inter-provinciais.
“O aumento da população nas cidades moçambicanas exige meios de transporte com maior capacidade e mais conforto”, sublinha o director nacional de Transporte de Superfície.
Os operadores de transportes públicos serão também obrigados a emitir bilhetes de viagem aos passageiros e a estabelecer horários, situação que até ao momento acontecia apenas as transportadoras do Estado. “Os passageiros têm o direito de conhecer exactamente as paragens dos autocarros, para saberem onde apanhar o carro e onde descer”, acrescenta Olívio Pinto. Por outro lado, as crianças, idosos e pessoas deficientes devem pagar um preço abaixo do custo normal da viagem, refere ainda o director-nacional de Transporte de Superfície.”
 
in http://www.oje.pt/noticias/africa/mocambique-proibe-chapas-com-mais-de-15-lugares

Imagem do dia #069

Escola Primária de Chiaquelane. Da 1ª à 4ª classe debaixo de um cajueiro.

Escola Primária de Chiaquelane


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