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O controlo

Há coisas que enervam mesmo o mais santo de nós! E, há coisas, que só podem acontecer em países como Moçambique!

Na quinta-feira passada ia a caminho de Maputo no PUTCO, a linha regular de machibombos (autocarros) que liga Chókwè à capital moçambicana.

Os controlos policiais são uma constante na estrada. Em parte, é uma herança do período da Guerra Civil onde era preciso controlar a movimentação de pessoas, bens e militares/guerrilheiros. Em parte, devido ao excesso de zelo que a Polícia tem sobre os condutores… especialmente se forem estrangeiros!

Se a primeira parte do “em parte” já não faz sentido, a segunda parte do “em parte” é um excelente pretexto para se passar uma multinha (que muitas vezes são correctamente aplicadas). É um excelente pretexto também para se conseguir um “refresco“. Ou seja, corrupção em todo o lado!

Como estava a descrever, na quinta-feira ia o machibombo a chegar a Marracuene, uns 30 e poucos quilómetros antes de Maputo, quando somos mandados parar pela Polícia.   A princípio pensei que fosse devido ao excesso de velocidade que o autocarro levava. Mas não, não foi devido a isso! E, afinal, quem nos mandou para foi o Exército e não a Polícia. Entraram no autocarro. Percorreram o corredor central de uma ponta a outra. Dois militares fardados e um, ao que parece, à civil.

Não está aqui o meu irmão” – foi a frase que o militar à civil pronunciou. Voltou para trás e o militar fardado disse:

Vai-lhe pedir a identificação” – ordenou um militar ao outro.

Não liguei muito à conversa até o tal militar à civil se ter aproximado junto de mim e me perguntar:

Desculpe, será que me poderia mostrar a sua identificação?

É o cúmulo! Eu fui o único a ser identificado e era, também, o único branco no autocarro!

Fiquei chateado, é certo, mas não tinha outra opção. Sou estrangeiro e eles são a autoridade!

Apenas perguntei porque razão teria de ser eu o único a mostrar o meu passaporte. A resposta foi uma estranha:

Quer que eu mostre a minha identificação também?!

Dei o passaporte para a mão. Em vez de verificarem se estava legal em Moçambique, ou seja, se tinha o visto em dia e os selos no passaporte, não! Foram ver o meu nome e a minha fotografia! Bem que o passaporte podia ser falso que nunca iriam dar conta!

Mas, a saga continua…

O polícia manda parar o carro que eu conduzia. Seria normal que me quisesse fazer um teste de alcoolémia. Era sexta-feira e eu tinha saído de um bar. Mas não. Um dos faróis do carro estava fundido. Saí do carro para verificar. Aqui, o polícia não esteve com meias medidas:

Senhor Alberto, sabe que podemos resolver isto de outra maneira!

Sim, mas eu quero saber quanto é a multa!

São 1000 Meticais, mas sabe que há sempre outra forma de sair daqui!”

Sim, mas eu quero mesmo pagar a multa. Chame lá o carro de patrulha para nos acompanhar à Esquadra.

Senhor Alberto, pague um “refresco” e poderá ir-se embora!

Apesar de descarado, não posso dizer que o polícia fora mal-educado. Voltei para dentro do carro e o Aldo iniciou um longo, longo discurso…

Sabe Senhor polícia, nós somos pessoas de princípios, e já poucas pessoas com princípios aqui! Por isso queremos mesmo pagar a multa!

O discurso continuou e eu e o Aldo estávamos dispostos a esperar o tempo que fosse necessário para que a patrulha chegasse.

O discurso continuou até que a parelha de polícias lá se apercebeu que da nossa parte não teria sorte e jamais veria um “refresco“!

Então… sigam lá!” – disse o polícia por último!

Não é de fazer perder a paciência a um santo?!

PS: até parece que nestes últimos posts tenho adoptado uma postura muito anti-moçambicana, mas tal não é verdade! O que é verdade é que atingi o ponto de saturação! Saturação para todo o tipo de faltas de educação que são tão comuns por aqui! Eles não querem aprender e levam a mal quando lhes ensinamos! Não há paciência que resista!

SUGESTÃO: sair de Moçambique regularmente!

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Trilogia: carne + fogo-de-artifício + polícia

Há certas situações que têm de ser contadas! Especialmente se forem passadas em países que não o nosso.  O fim-de-semana passado prometia ser bem activo, com jantares, festas e passeios por Maputo à mistura! E activo foi ele… demais até!

SEXTA: no Paraíso das Carnes!

Na sexta-feira à tarde parti de Chókwè em direcção a Maputo com a nova voluntária que está em Xai Xai e que em Novembro virá trabalhar no orfanato onde estou. A Mariana já precisava de “banho de civilização”, pois desde o momento em que chegou até ao fim-de-semana passada (3 semanas), ainda não tinha saído do Xai Xai. A cidade é capital de província… mas deixa muito (tudo) a desejar! Como já devem ter percebido, ir a Maputo é, para os que vivem no meio do mato, uma grande necessidade e, ao mesmo tempo, um grande luxo!

Logo na sexta à noite estava marcado o jantar de aniversário do Aldo. Uma verdadeira mesa multicultural, onde as relações internacionais estavam a funcionar plenamente! Era em português, em inglês, em flamengo, em italiano… eram Portugueses, Belgas, Australianas, Suíças, Moçambicanos, Italianos… no fundo, uma micro Babel!

O restaurante, a Esplanada do Kalu’s, carinhosamente apelidada por nós de Paraíso das Carnes, é, como o nome indica, uma esplanada que tem lá dentro uma espécie de talho. Escolhem-se as carnes, os empregados vão grelha-las no centro da esplanada (estão a ver com que cheiro saem de lá as roupas?!?!?!) e depois trazem-nos o banquete à mesa!

Como devem imaginar, grandes jantares com muita gente são sempre propícios a que as “pontas” se desliguem “do centro” da mesa, acabando cada grupinho por seguir para um local diferente no fim da jantarada.

O meu destino foi um bar, Mafalala Libre, na Mao Tzé Tung, onde estava programado um concerto de Marrabenta, a música “nacional” de Moçambique, cantada pelo “pai” deste estilo musical. Entrámos, o ambiente estava porreiro e cedo se ouviram os primeiros acordes… é contagioso! Não dá para ficar sem bater o pé! A noite continuou com muita gente a mostrar as suas qualidades dançantes! Uma vergonha para os Europeus que “mal mexiam o rabinho”! 🙂

SÁBADO: o strip pirotécnico

A noite de sábado prometia. Há vários dias que se andava a programar esta noite. A grande atracção era o Luso. Não, não fomos à central de distribuição de águas! O Luso é um dos mais conhecidos cabarets da capital moçambicana. Situado em plena zona histórica da cidade, mesmo junto ao Porto de Maputo, o cabaret é ponto de encontro para grandes noites de diversão!

Há uns meses atrás, quando fui à Ilha de Inhaca, a viagem de barco foi única e exclusivamente sobre o strip “flamejante” que uma menina tinha apresentado no Luso. Todas as vezes que saímos em Maputo este espectáculo era assunto recorrente… tanto que para todos os que não assistiram da primeira vez ao show, uma visita ao fogo-de-artifício era quase obrigatório!

Nem mais, lá fomos nós! Não há diferenças de raça ou de classe… lá todos são iguais e há apenas dois tipos de pessoas: os que querem lá ir para ver o espectáculo… e os outros que vão lá para o engate!

Tinham-me avisado que o ambiente era pesado, mas eu queria ver como era! Logo à entrada uma menina faz-me uma primeira “inspecção”… “Perigoso…” foi o resultado da busca dela!

Seguimos para um local menos movimentado à espera do show. Enquanto esperávamos fomos todos (rapazes e raparigas) inspeccionados várias vezes! Se calhar elas queriam ver se tínhamos alguma arma preparada para disparar!!! 😉 São umas malandras! 🙂

O espectáculo lá começou! Varão, vela acesa, fogo, labaredas. Mais não posso dizer… isto é lido por crianças!!! Só posso afirmar que a técnica da stripper com a vela acesa era, de facto, FANTÁSTICA!

DOMINGO: Dia da Polícia

Com o fim-de-semana já a terminar, faltava-me a habitual saltada ao Game, o Jumbo cá da zona, para as compras do mês.

O meu passaporte e a carta internacional de condução tinham ficado na carteira da Rita. Ora bem, andava sem documentos nenhuns! Já ia a caminho do supermercado quando sou mandado parar pela polícia.

Bom dia, o Senhor cometeu uma infracção grave!” – disse o polícia.

EU? Onde?” – exclamei eu… mesmo desconfiando que tinha mesmo feito algo de errado.

Sim, virou à esquerda no final desta avenida na faixa onde tal não é permitido” – explicou, muito calmamente, o polícia.

Na realidade, fiquei a perceber para que servem as vias laterais da Avenida Salvador Allende. Tal como em Lisboa, na Avenida da Liberdade, esta grande avenida tem faixas laterais, separadas das faixas de circulação normais, para se proceder nas viragens à esquerda ou à direita. Com o erro assumido, não tive outra opção se não pagar a multa. Mas, ao contrário do que acontece em Portugal, as multas são pagas, pelo menos com esta polícia (espécie de PSP), junto do Comando Central. Para lá chegarmos temos de nos fazer acompanhar pelo polícia que nos multou! Aqui em Moçambique, a polícia é muito dada a favorezinhos e pequenos subornos (os refrescos como aqui se diz). A multa era de 2000 Meticais (mais ou menos 50 Euros), um preço elevado, mas que eu queria a toda a força pagar para não ter de dar um pequeno “refresco” ao polícia.

Se quer pagar temos de o acompanhar ao Comando” – explicou o polícia.

Com certeza, façam favor de entrar” – armei-me eu em esperto…

Entraram dois polícias, armados com as suas metralhadoras, para dentro do carro. Tenho que assumir que a ideia de viajar com duas armas nas mãos de dois polícias dentro do carro não é fácil!

Conversa puxa conversa, eles lá me perguntaram para onde ia. Disse-lhes que ia levar uma colega a Xai Xai e que depois seguiria para Chókwè. Disse, também, à espera que fizesse algum efeito, que trabalhava com Irmãs e com crianças órfãs (perdoem-me!!!). E não é que teve efeito.

Não entre no Comando… siga em frente! Sabe, Sr. Emanuel, há outra forma de contornar a situação” – disse um dos polícias de forma muito evasiva.

Ai sim? Qual” – pergunta retórica minha!

O Sr. Emanuel é que sabe!” – a resposta, estava-se mesmo a ver, era a pedir um refresco em troca da multa.

Não sei como consegui, mas encostei o carro, virei-me para trás e, vendo que a probabilidade de eles saírem do carro era muita, disse: “Só tenho 140 meticais aqui comigo. Mas isto é tão pouco…” Mais uns dedos de conversa e eles lá se conformaram com os 140 Meticais. É triste, eu sei, mas a vontade que eles tinham que eu fosse pagar de facto a multa também não era muita!

O Hugo e a Rita, que me seguiram desde que fui mandado parar, só se riam da situação! Embora reprovassem o refresco dado…

Mas, a saga policial ainda não tinha acabado! Não, há sempre uma segunda parte!

Já na estrada a caminho do Xai Xai, a Nacional 1, fui mandado para novamente no meio de uma povoação. Não sei se seria Palmeira ou 3 de Fevereiro, mas que vinha distraído na conversa era verdade!

Boa tarde! Convido-o a sair e verificar a velocidade a que entrou nesta localidade” – que convite tão amável por parte do polícia!

Entrei a 69 km/h quando o máximo era apenas 60. Desta não havia forma de me escapar à multa. Foram só 9 quilómetros/hora de diferença, mas não havia escapatória! 1000 Meticais de multa. Estes, pelo menos, passam recibo pelo que a probabilidade de o dinheiro ir parar a mãos sujas é menos provável!

Bem, já sei, quando vir a placa a dizer “proibido circular a mais de 60 km/h” vou-me lembrar sempre dos meus belos 1000 Meticais de multa!

Não paguei na primeira vez… paguei à segunda!

Como diz um amigo meu, “são vidas!


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