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Saudosismo, esperança ou conservadorismo?!

Bandeira de MoçambiqueHoje tive uma conversa muito interessante.

No pátio da casa do Sr. Xavier, antigo director da Escola Secundária de Chókwè, trocamos algumas frases, algumas histórias e muita História!

O Sol ia já dando lugar à Lua quando bati à porta daquele que até há poucos dias seria o meu vizinho da casa. O Sr. Xavier é professor de História,  disciplina que eu tanto gosto, e tem, como muitos Moçambicanos, um carinho especial por Portugal.

Ele contou-me como era a vida quando os Portugueses administravam o território de Moçambique. “Eram tempos diferentes, onde os Portugueses eram vistos como um povo trabalhador” iniciou o Sr. Xavier. Num misto de saudosismo, a conversa foi-se alongando. Ora ele levantava questões sobre o Portugal de hoje, ora eu perguntava coisa da História “destes dois povos”!

Assume-se como um Moçambicano orgulhoso, mas não pode deixar de se lembrar de como as coisas eram administradas noutros tempos. Explica o Sr. Xavier  que o colonialismo Português destaca-se dos demais pela forma como a população branca e negra interagia. “Havia uma separação, é claro, uns eram brancos, civilizados e europeus, outros eram negros” – concretiza o senhor professor, mas a verdade é que a miscigenação entre Portugueses de Portugal e Portugueses de Moçambique (se assim pudéssemos classificar os nascidos nos territórios da África Oriental Portuguesa na altura!) era muito grande, o que, de facto, fazia a distinção entre o colonialismo Português e o colonialismo Francês, Belga ou Inglês.

Ele mesmo, apesar de negro, diz que não pode esquecer que desde a nascença tinha o estatuto de “assimilado”, daí toda a sua educação ser “branca”. “Não comia na mesa dos Senhores [brancos], mas vi muitas vezes essa mesa e comi o que eles comiam também” esclareceu o Sr. Xavier.

Não quer passar a ideia saudosista do Império Português, nem da sua colonização, mas recorda os bons momentos que viveu com os seus colegas de turma brancos, da História de Portugal, do estilo de educação, dos escuteiros (o que ele realmente não apreciava!!!) e, repetitivamente afirmou, “da forma como os colonos brancos eram trabalhadores”.

Havia excessos, é claro, mas excessos sempre houve e esses não são desculpa para certas atitudes. Quando Moçambique se tornou um Estado independente o Sr. Xavier deixou de ser Português e passou a ser um Moçambicanos com todos os direitos e deveres! Não havia estatuto de civilizado, branco, negro ou assimilado. Mas, como em todas as revoluções há excessos, excessos que só mais tarde são rectificados. A forma como os Portugueses tiveram de abandonar o território, perdendo praticamente todos os seus pertences, é um desses excessos! “A minha mãe sempre disse que a forma como os Portugueses saíram de Moçambique não era correcta. O povo estava cá para trabalhar, e se por ventura conseguiu fazer fortuna ou se tem alguns bens de valor, tem todo o direito de os levar para a sua terra. Deus não permite tal impunidade. Se são homens de bem, mais tarde ou mais cedo serão recompensados”. A frase é grande, mas ficou gravada minha memória tal foi a forma como o Sr. Xavier a disse. Na realidade, os Portugueses estão a voltar aos poucos e a reaver, quando possível, alguns pertences que o tempo da história ainda não apagou!

A Guerra Colonial em Moçambique não foi contra os Portugueses. Foi contra os políticos e as suas políticas, contra o regime e contra a mordaça! “O 25 de Abril foi uma bênção!” exclamou o Sr. Xavier. Mas tudo o que veio depois foi uma desgraça! Não houve período de transição de poder que fosse suficiente para deixar os Portugueses sair e os Moçambicanos ocupar os lugares vagos! “Tudo foi feito à pressa: as gentes do campo vieram para a cidade, os campos de cultivo foram abandonados, muitas habitações, fábricas e infra-estruturas básicas foram destruídas. O caos!!!” Depois veio a guerra civil. Não se percebia muito bem o porquê daquela guerra. FRELIMO e RENAMO lutaram pelo poder. Só em meados dos anos noventa a guerra teve oficialmente um fim.

Hoje, Moçambique é uma jovem democracia, um país em “estado de construção” permanente que assiste a uma explosão demográfica. De pouco mais de 9 milhões de habitantes em 1975, hoje o território conta com mais de 20 milhões de habitantes. O crescimento populacional foi realmente explosivo, mas tudo o resto permaneceu num estado de puro ralenti. A economia não acompanha as necessidades da população; a agricultura de subsistência continua a ser a base desta frágil economia; os índices de pobreza, desenvolvimento, esperança média de vida, mortalidade infantil e alfabetização são dos mais baixos de todo o mundo. O Governo de Luísa Diogo cose, como diz o Sr. Xavier,  pelas agulhas do FMI. A África do Sul, grande potência do continente, continua a estender os seus tentáculos pela economia dos países vizinhos, e Moçambique não é excepção!

Mas, para Moçambique ainda há esperança! “Esta nação jovem há-de dar a volta por cima…” foi assim, com esta expressão cheia de moçambicalidade [há-de… hei-de…!] que o Sr. Xavier concluiu a sua “aula”.

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