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Armando Guebuza primeiro candidato oficial às presidenciais

O presidente da FRELIMO, partido no poder em Moçambique, apresentou hoje em Maputo a candidatura às eleições presidenciais de Outubro, que quer ganhar para “continuar a lutar contra a pobreza”. mais…

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No dia de Camões…

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas… não é feriado em Moçambique, mas hoje na cidade de Chókwè foi como se tivesse sido feriado! Razão?! O Presidente da República de Moçambique, Armando Guebuza, veio visitar a cidade.

E que festa foi para aqui… Nas últimas semanas tenho notado mais trabalhadores a arranjarem os jardins, os buracos na estrada e a limparem a cidade. Ontem, quando cheguei do trabalho, reparei que a cidade estava enfeitada com muitas bandeiras, cada uma com uma cor da bandeira de Moçambique.

Hoje de manhã estava tudo em festa! Não houve aulas e todos os serviços e lojas estiveram fechados. Não havia bancos, padaria ou supermercados a funcionar… até as bancas do mercado estavam fechadas! Tudo porque Sua Exa, o Presidente, iria visitar a cidade.

COM GUEBUZA VENCEREMOS A POBREZA!

Com Guebuza venceremos a pobrezaAproveitei a boleia dos locais e fui com eles até ao palanque onde iria discursar o Presidente. Cedo me apercebi que esta festa ia tomar muito tempo… a chegada do presidente foi alterada e todo o povo rumou para junto do Estádio Municipal. Pelo caminho, os únicos brancos no meio da multidão eram eu e a Rita!

Já no Estádio a confusão foi total. Em primeiro porque manter milhares de crianças quietas e “sugadas” num só sítio é uma tarefa impossível e, em segundo, porque o atraso do Presidente foi de tal ordem grande que a paciência das pessoas começava a esgotar-se!

Duas horas e meia depois do inicialmente previsto lá chegou o Presidente. E foi quando ele chegou que a bancada vibrou! E foi, também, com a chegada do Presidente que eu apanhei uma grande desilusão… Não foi um, nem dois, nem três… 7 helicópteros para transportar o Presidente. Até agora ainda não percebi a razão de tanto aparato. Um país tão pobre, com tantas dificuldades, e o presidente vai logo usar 7 helicópteros. É que para piorar as coisas, estes 7 helicópteros foram todos alugados à África do Sul e os pilotos, como é lógico, eram sul-africanos. Não havia outra forma de gastar este dinheiro?! Se andaram com tanta pressa a remendar a estrada, porque veio o senhor Presidente de helicóptero? É certo que a sua visita não se resumiu ao Distrito de Chókwè, mas todos os lugares visitados eram perfeitamente acessíveis de jipe! A isto é que eu chamo esbanjar o erário público! Mas, infelizmente, os Moçambicanos gostam desta festa fachada. Rejubilam com o ter a possibilidade de faltar ao trabalho, com os “presentinhos” que a FRELIMO oferece… enfim, já diziam os Romanos “pão e circo para animar o povo…”

Conhecem a marca de escovas de dentes Corona?!Depois da chegada do Presidente recusei-me a ouvir o discurso e fui trabalhar! Mas a festa continuou no Orfanato, isto porque todos os alunos do Distrito foram dispensados às aulas. Além disso, tinham sobrado umas bebidas da festa do Dia da Criança na Praia do Bilene e era “necessário” acabar com elas. Às bebidas juntamos uns chocolates e, para terminar em beleza, uma escova de dentes! A-L-E-G-R-I-A total! Ahh, e muita música e dança à mistura!

Tenho que confessar que não resisti em deixar passar o dia 10 sem ouvir A Portuguesa. Nem sabem a sensação que é ouvir o hino português quando estamos no estrangeiro…

Passou o 1º mês!

E como passou rápido este mês.

O trabalho está a correr…devagarinho, mas está a correr! São tão lentas as coisas aqui. As pessoas são lentas, o tempo às vezes passa devagar também.

Um mês depois de chegar instalei-me na minha casa. A minha palhota de luxo! 😉

Uma das coisas mais interessantes a que posso assistir aqui é a forma como a sociedade está organizada. No sul de Moçambique o lado masculino é o mais importante. Já no norte, a mulher tem mais preponderância na sociedade. Esta forma matriarcal e patriacal de organizar a sociedade abriu fendas na unidade do país. No norte, o homem está em segundo plano na família (por exemplo, quando alguém se casa, o noivo passa a viver com a família da noiva e os seus filhos são considerados como parte da família da noiva. Se o pai ou a mãe morrer, os filhos ficam sempre na “posse” da família materna). No sul, a sociedade é organizada no sentido oposto. É em torno do homem que a sociedade gira. A mulher é relevada para um plano secundário.

Há, também, uma divisão política grande entre o norte e o sul de Moçambique. FRELIMO e RENAMO, os dois grandes partidos políticos moçambicanos, repartem as suas forças pela geografia do país. O sul é claramente pró-FRELIMO, ao passo que o norte é pró-RENAMO. Aliás, foi da Província de Gaza, no sul de Moçambique (onde vivo), que as grades figuras da FRELIMO nasceram e foram criadas. É, portanto natural, que esta seja uma zona onde a RENAMO não tem expressão política minimamente relevante. Maputo é governada por um político da FRELIMO e a cidade da Beira, a segunda maior e mais importante cidade do país, é liderada por um político da RENAMO. As diferenças entre as duas cidades são abismais e uma das razões que pode explicar o atraso da cidade da Beira é, por exemplo, o facto de este distrito ser governado pela RENAMO. As diferenças entre RENAMO e FRELIMO não desapareceram após a Guerra Civil. O Governo Nacional é FRELIMO… parece fácil perceber o jogo de influências e teias políticas que existe por estas terras!

Os próprios costumes e tradições da população variam consoante as diferentes regiões. A diversidade linguística e étnica é impressionante. Esta diversidade, na qual a Língua Portuguesa funciona como elo unificador, pois sem ela não haveria forma de estabelecer uma comunicação inteligível para toda a população, é resultado da divisão a “esquadro e régua” que os europeus fizeram em África. De facto, em toda a África podem-se contar pelos dedos de uma mão os países que gozam que uma unidade cultural, linguística, religiosa e étnica estável.

Há poucos dias estive num jantar e discutimos a sociedade moçambicana com alguém que verdadeiramente percebe destas coisas. Rita Sequeira é antropóloga e é responsável pela intervenção comunitária na região de Chókwè no que diz respeito à prevenção da malária. O seu conhecimento da sociedade e dos seus costumes é profundíssimo. Segundo ela, todos estes processos que agora têm lugar em Moçambique são fases de evolução da sociedade. “Nós, na Europa, também tivemos uma sociedade assim!” – rematou a Rita. Mas, para podermos perceber um pouco melhor o estado da sociedade, chegamos à conclusão que este mesmo estado, digamos primitivo/em fase de evolução, da sociedade moçambicana ocorreu há cerca de 300 anos na Europa! É um fosso muito grande! Porventura, graças à globalização, não serão precisos 300 anos para a sociedade local atingir um novo patamar de desenvolvimento, mas a certeza é que o processo será muito lento. A tradição e os costumes são elementos que resistem à mudança, e mudança é o que este país mais precisa!


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