Barragem de Massingir

Hoje passam 10 anos sobre as devastadoras cheias que assolaram a Província de Gaza. Foram cheias brutais que alagaram e destruíram tudo numa enorme região fértil e muito habitada.

Um dos grandes problemas, que poderá no futuro evitar novos desastres naturais como o que aconteceu em 2000, passa pela construção de barragens. No caso de Moçambique, há a necessidade de criar barragens gigantescas pois o terreno maioritariamente plano do sul do país não permite barragens do estilo de Cahora Bassa, na Província do Tete, no centro do país.

O grande rio de Gaza, o Limpopo, é apenas controlado pela pequena Barragem de Macarretane, junto à cidade do Chókwè.

Massingir, uma aldeia perdida no interior de Gaza, bem próximo da África do Sul, deu nome a uma outra notável obra de engenharia portuguesa: a Barragem de Massingir. Esta forma uma albufeira de proporções muito grandes. Nas suas margens tem início o Parque Nacional do Limpopo (actualmente ligado ao Kruger National Park na África do Sul).

A barragem de Massingir, situada no rio dos Elefantes, afluente principal do rio Limpopo, era uma componente importante para o desenvolvimento hidroagrícola do Vale do Limpopo, na concepção desenvolvida pelo Eng.º Trigo de Morais durante o período de colonial.

A primeira fase desse desenvolvimento consistiu na construção do regadio de Chókwè e da Barragem de Macarretane em meados da década de 1950, o que permitiu a instalação do colonato do Limpopo com famílias vindas de Portugal. A barragem de Massingir destinava-se a permitir expandir a área de rega, atendendo à quase nula capacidade de regularização de escoamentos da barragem de Macarretane.

Em meados da década de 1960, a empresa portuguesa COBA foi contratada para preparar o projecto da barragem. O projecto inicial era o de uma barragem cerca de 15 m mais baixa que a actual barragem de Massingir e com um comprimento de coroamento muito inferior aos actuais 4630 m. Quando o projecto da barragem já estava bastante avançado, registou-se uma seca gravíssima na bacia do rio Limpopo, com enormes impactos negativos no colonato do Limpopo, o que levou o Eng.º Trigo de Morais a solicitar à COBA que o projecto considerasse uma albufeira com muito maior capacidade. Daí resultou então uma barragem mais alta e bastante mais comprida, uma vez que a topografia da secção da barragem obrigou a construir um longo dique na margem direita.

A barragem de Massingir é uma barragem de terra com uma altura máxima de 46 m no vale principal, sendo a cota de coroamento de 130 m. O descarregador de cheias situa-se no encontro da margem esquerda da barragem, ficando a crista da soleira à cota 115 m e o topo das comportas (quando instaladas) à cota 125 m. Assim, enquanto as comportas não estivessem instaladas, o nível de pleno armazenamento (NPA) ficaria limitado à cota 115 m, reduzindo a capacidade da albufeira a menos de metade da capacidade com as comportas instaladas (NPA à cota 125 m). O desvio provisório do rio para a construção da barragem foi feito na margem direita do vale principal e aí foram posteriormente instaladas as duas descargas de fundo e a conduta do circuito hidráulico para a futura central hidroeléctrica. Estas três condutas podem ser fechadas por comportas ensecadeiras a montante (do lado da albufeira) manobradas a partir de uma torre de comando. Não existe qualquer outro controlo na conduta do circuito hidráulico ao passo que as duas descargas de fundo são controladas por comportas de sector do lado de jusante da barragem. Toda esta zona corresponde à tomada de água.

Um longo dique (4630 metros) situa-se à direita da tomada de água.

A barragem começou a ser construída em 1972, tendo a obra sido adjudicada à empresa Tâmega. O Dono da Obra era o Gabinete do Limpopo que tinha a sua própria fiscalização, apoiada na parte dos ensaios laboratoriais pelo LEM – Laboratório de Engenharia de Moçambique.

A partir de 25 de Abril de 1974 houve diversas perturbações no decurso da obra. A situação melhorou após a Independência, mas nessa altura verificaram-se problemas de direcção da obra (empreiteiro) e com a fiscalização, tendo a situação apenas normalizado em 1976.

Em Fevereiro de 1977, verificou-se uma grande cheia no rio Limpopo que a barragem de Massingir, ainda incompleta, não conseguiu minorar. Os trabalhos da primeira fase foram concluídos em 1977, tendo a barragem sido oficialmente inaugurada em 31 de Outubro desse ano. Ficaram para uma segunda fase a instalação das comportas no descarregador de cheias e a construção da central hidroeléctrica.

O acidente de 2007

 

O acidente ocorreu no dia 22 de Maio, 5ª feira, entre as 14h30 e as 14h45. As duas comportas de sector estavam fechadas desde as 8h da manhã. A comporta ensecadeira direita estava totalmente aberta. A comporta ensecadeira esquerda estava parcialmente fechada (situação causada pela falta de energia na barragem).

Segundo a testemunha mais próxima do local do acidente, Sr. Afonso Ngovene, guarda da barragem, que estava a escassas dezenas de metros, na margem direita das descargas de fundo, houve um processo sequencial até à rotura (de duração estimada por ele em cerca de 3 minutos – teve tempo para se abaixar e sentar):

  • Começou por ouvir um barulho que lhe pareceu ser de manobra das comportas o que achou estranho por saber que não havia energia e, por isso, as comportas não podiam ser accionadas;
  • Como o barulho continuasse resolveu aproximar-se do muro lateral direito das descargas de fundo;
  • Quando se aproximava, viu que saía uma “nuvem” ou “spray” de água ao mesmo tempo que se ouviam sucessivos ruídos, numa sequência de fortes estalidos, processo que terminou com a formação dum tremendo “repuxo”, que subiu acima do nível da cabeça dos servomotores, acompanhado dum fortíssimo “estrondo”, momento em que se pôs em fuga.

Podemos interpretar este testemunho em termos do acidente da seguinte maneira:

  • A pressão da água nas condutas das descargas de fundo criou um escape, possivelmente através do rompimento do vedante de uma junta, originando o “spray” referido pela testemunha;
  • A pressão da água foi originando em algumas zonas o colapso do betão e das armaduras de aço (sequência de estalidos fortes ouvidos pela testemunha), cuja rotura originou o sucessivo colapso em outras zonas;
  • Os blocos de betão armado, assim desligados, foram então ejectados pela pressão da água que, liberta, formou o enorme repuxo subindo a grande altura e continuando a provocar o colapso da estrutura.

 

 

Após este grave acidente, toda a barragem sofreu obras de remodelação.

NOTA: os dados técnicos sobre a Barragem e a explicação do acidente de 2007 são citações do “Relatório Final da Comissão de Inquérito ao Acidente da Barragem de Massingir, Maputo, 2007”

24 Responses to “Barragem de Massingir”


  1. 1 Helena 1 de Março de 2010 às 05:30

    Olá Alberto,
    Passo apenas para lhe dar os parabéns pela excelente recolha Histórica que está a fazer aí. Nos seus posts estou a conhecer melhor a “minha” terra e a grandeza desperdiçada que por este mundo a fora fomos deixando!
    Mais uma vez Obrigada pela partilha.
    Um Abraço,
    Helena

  2. 5 Rui Lima 2 de Março de 2010 às 19:00

    Alberto. Corrige-me se estiver errado: Massingir e Macarretana são absolutamente a mesma “coisa”?

    • 6 albertocchaves 2 de Março de 2010 às 21:57

      Olá Rui!

      Não, Massingir e Macarretane são barragens diferentes. Macarretane fica a 20 kms a norte de Chókwè (na estrada para Chicualacuala – Vila Eduardo Mondlane – Zimbabué). É uma pequena barragem no curso do rio Limpopo (serve para abastecer os canais de regadio de Chókwè).

      Massingir dista cerca de 120 a noroeste de Chókwè e é simplesmente gigante! Fica situada no curso do rio Elefantes que é o principal afluente do Limpopo.

    • 7 Sebastiao Macamo 21 de Outubro de 2013 às 07:21

      não, massingir e’ uma barragem e Macarretana e’ uma represa ou dique, espécie de ponte, recebe agua da rio Limpopo e da Barragem de Massingir, e não tem reservatório apenas só barra a agua,

      bom espero ter ajudado…

  3. 8 Rui Lima 3 de Março de 2010 às 18:04

    Junto à fronteira na linha de Mabalane. Ok registei. Para ali já existe alcatrão para a estrada!

  4. 10 joao alves 6 de Fevereiro de 2011 às 18:21

    desejava ser contactado em portugues se possivel,grato pela atençao abraço

  5. 11 Miguel Costa 12 de Fevereiro de 2011 às 13:28

    Bom dia Alberto.
    Nasci em Moçambique pois o meu pai trabalhava na construção da barragem de massingir e a minha mãe dava aulas na pequena aldeia perto da barragem.
    Vivi no “bairro estaleiro” que a construtora do Tâmega construi.
    Todo o arquivo fotográfico da altura foi perdido quando viemos embora.
    Se tiveres e poderes publicar mais fotos da altura ou mesmo actuais agradeço-te.
    Gostava de poder rever o sitio onde dei os primeiros passos.
    Abraço.

    • 12 Ana paula campos luz 2 de Fevereiro de 2012 às 20:35

      S. Miguel gostaria de saber se a sua mãe se chama Margarida e o local onde dava aulas era na Codame, é que eu tambem estive a morar no bairro que a contrutora do Tamega construio e o meu pai trabalhava na barragem com o meu irmão e um tio meu estive nessa escola e recordo-me da professora e do seu filho, adoraria saber se por acaso não é você.

      • 13 Jorge Godinho 13 de Abril de 2012 às 16:44

        Sra Ana Paula Campus Luz: Encontrei este site por acaso. Fiquei curioso em relacao a sua mensagem que enviou para S.Miguel, onde fala de uma professora chamada Margarida que dava aulas na escola primaria junto a Codame. Essa professora e a minha mae e eu sou o filho dela (Jorge).. O meu pai tambem trabalhou na construcao da barragem. Nos estivemos la ate 1979.

      • 14 Ana paula campos luz 17 de Abril de 2012 às 22:46

        S.Jorge nem sei o que dizer, pois fico surpreendida com a resposta eu tambem encontrei este site por acaso e fique muito admirada,porque fui enconter uma das fotos nele representado sou eu o meu pai e o meu irmão mais velho gostaria de saber mais sobre a sua mãe foi uma pessoa que nunca esqueci, Eu sou de Grandola mas estou no Estori. Recordar aquele tempo é muito bom, felicidades.

  6. 15 António Queijo 5 de Junho de 2011 às 11:26

    É bom ler e ver imagens de uma obra em que participei activamente aquando do inicio da sua construção.
    Ouros tempos…Sagres, Vista Alegre, Choupal, Nampula, Porto Amélia e … Saudades

  7. 16 Emanuel Couto 19 de Outubro de 2011 às 21:22

    Amigo Alberto Chaves, permita-me uma pequena correcção: o início dos trabalhos da barragem de Massingir foi em 1971 e não 1972. Digo isto porque fui um dos primeiros funcionários da Construtora do Tâmega a lá chegar onde dorniamos numa dependência do posto administrativo, sem quaisquer condições. havia uma cantina a cerca de 100m do posto e mais nada. Posteriormente foram edificadas casas pré fabricadas para os trabalhadores e um grande armazém que durante uma violenta tempestade, foi-lhe arrancado o tecto por completo ainda guardo algumas fotografias desse dia. Foi violento. Ream engenheiros da obra Engº.Guimarães, Engº.Schaultze e Engº.Hop. Se puder ajudar em alguma coisa, diga.
    Abraço

  8. 17 Emanuel Couto 28 de Outubro de 2011 às 20:36

    Caro amigo Alberto, permita-me que corrija a data de início da Barradem de Massingir. Os trabalhos no terreno tiveram início em 1971 e não 1972, digo isto porque fui dos primeiros a lá chegar para trabalhar, desempenhei as funcões de chefe da secção de pessoal da Construtora do Tâmega. Na altura só lá havia uma cantina e o posto administrativo com uns anexos sem quaisquer condições que nos abrigaram, porteriormente é que companhia construiu casas pré fabricadas para os funcionários. Tenho fotograias de uma tempestade durante uma noite que arrancou telhados e destruiu o armazém durante uma noite. De bom grado voltaria a Massingir. Abraço
    Emanuel Couto

    • 18 Sebastiao Macamo 21 de Outubro de 2013 às 07:38

      ca estou eu a biblioteca da barragem de Massingir

      a execução dos trabalhos iniciaram, logo no arranque do estaleiro( acampamento junto a barragem), pelos trabalhos de saneamento da fundação do dique da margem direita, pelos ensaios de consolidação das aluviões. estes trabalhos de consolidação prosseguirão nas estiagens de 1971 e 1972, desviando as aguas do rio através das pequenas ensecadeiras por forma a ter a consolidação executada em toda a área da fundação da barragem principal no fim da estiagem de 1972.
      e a construção da barragem iniciou em 1972…

  9. 19 frenk rildo 2 de Novembro de 2011 às 20:38

    agradeco muitom pelas imagens gostaria mostrassem todo plano da barragem de cahora bassa, para ter uma nocao do que e d facto uma barragem, e que sou estudante do instituto industrial de maputo no curso de hidraulica ultimo ano

  10. 20 Ismael 7 de Agosto de 2012 às 12:01

    oi alberto, obrigado pelo blog, eu acabei entrando por aquí porque procuro por familiar que esteve presente na contrução de uma ponte em chókwè na era colonial vindo de portugal, o nome dele é josé inácio, s tiver alguma dica de como posso ter acesso aos nomes que stiveram presentes na construção das pontes agradecia que me ajudasse.

  11. 21 ODETE MATOS SILVA 20 de Novembro de 2012 às 22:28

    Olá tal como muitos também entrei neste blog por acaso e fiquei surpresa.Estivemos em Massingir na década 70 /78,onde os meus pais tinham um comercio de frente para administração de cor verde junto com moradia e armazém ao lado do depósito da agua.O meu pai chamava-se JÚLIO PAULO MATOS SILVA.Eu chamo-me ODETE e também andei na escola em Massingir,a minha professora era a filha do administrador Mel Egídio de nome Marília.O meu pai esteve até 1978,eu por motivos de doença vim para Portugal e radiquei-me na Beira Baixa.Nunca mais vi ninguém que estive-se em Massingir na mesma altura que eu e tenho muitas saudades quer da localidade quer das pessoas que lá conheci.Muitos foram clientes da loja dos meus pais e amigos,trabalhavam na Tâmega e na Administração.Gostaria muito de voltar a vê-los.Há um grupo no Facebook que junta muitos dos que estiveram em África que se chama “Acrenamo”adicionem-se.Um abraço fraterno a todos.

    • 22 Emanuel Couto 2 de Dezembro de 2012 às 13:55

      Odete Matos Silva, Participei no início dos trabalhos da Barragem de Massingir, em 1971.Eu era funcionário da Contrutora do Tâmega. Já lá vão 41 anos.
      Cumprimentos
      Emanuel Couto

      • 23 ODETE MATOS SILVA 3 de Dezembro de 2012 às 13:38

        Ola Emanuel Couto espero que esteja bem,eu vou indo com a graça de Deus.Pelo que diz então deve ter conhecido o meu pai e quem sabe se calhar cruzou-se com uma menina que quase sempre estava de “RÁDIO” ou ombro ouvindo música,que era eu.Para além da loja dos Pachecos a outra loja era do meu pai.Foram tempos muito bem passados.Quem sabe se um dia não nos encontramos por ai e recordamos um pouco da nossa história e da história da nossa ÁFRICA.Um Abraço.Odete Matos Silva.

      • 24 emanuel couto 4 de Dezembro de 2012 às 01:29

        Cara amiga Odete Silva, J l vo tantos anos que se tornou difcil lembrar de todas as pessoas com quem lidamos naquele querido tempo. Peo-lhe que me perdoe se no me lembro de si. Provavelmente cruzamo-nos muitas vezes, mas eu tambm era muito jvem, teria na altura 19 anos, j tenho 60, veja l como o tempo passa. S lhe quero adiantar o seguinte: aquela querida terra nunca me sau do corao. Depois de ter orgnizado os trabalhos de escritrio em Massingir, regressei a Tete onde permaneci at Outubro de 1972, regressando aos Aores para cumprir o servio militar, que por ironia do destino, me levou de novo para frica mas desta vez para Angola, onde estive at 1975. De qualquer forma, junto lhe envio umas fotografias minhas em massingir, veja se se lembra desse moo. Este senhor que est comigo era o sr. Martins, talvez se lembre dele melhor do que de mim, porque ele ainda l ficou depois de eu ter voltado para Tete.CumprimentosEmanuel Couto. Date: Mon, 3 Dec 2012 11:39:01 +0000 To: bravio19@hotmail.com


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